Conta-se em Minas Gerais — e Minas gosta de contar histórias como quem mede o tempo pela sombra do cafezal — um episódio que atravessou décadas sem perder atualidade. No início dos anos 1960, um deputado poderoso, dono de vastas lavouras de café, viu sua fortuna ameaçada por uma longa estiagem. Procurou um banco em busca de crédito para renovar a plantação. Teve o pedido negado. Nem mesmo a proximidade com Juscelino Kubitschek, então presidente da República, foi suficiente para dobrar a prudência dos banqueiros.
Ferido no orgulho e no bolso, o parlamentar decidiu jogar fora do tabuleiro. Mandou imprimir milhões de panfletos anunciando que a instituição financeira estava à beira da falência. O método foi tão ousado quanto eficaz: os papéis foram lançados de um avião, em voo rasante, sobre dezenas de cidades. A notícia era falsa, mas o efeito foi verdadeiro. Em pânico, correntistas correram às agências para sacar seus depósitos. Em pouco tempo, o banco quebrou — não por má gestão, mas por falta de liquidez. Foi consumido como lavoura atacada por praga de gafanhotos: rápida, barulhenta e devastadora.
O tempo passou, o século virou, mas o método sobreviveu. Mudaram-se os nomes, sofisticaram-se os meios, e a mentira ganhou verniz importado: fake news. Poucos se dão ao trabalho de traduzir a expressão pelo que ela é — mentira — ou, no mínimo, uma verdade torta, dessas em que quem conta um conto aumenta um ponto. O enredo se repete, agora em escala digital, com a mesma lógica predatória.
É nesse contexto que se insere o caso BRB–Master. Em um emaranhado de interesses que pouco tem de técnico e muito de político, precipitação vira sinônimo de insolvência; ajuste é tratado como liquidação; ruído é vendido como prova. A Faria Lima entra em pânico seletivo, Brasília sente o abalo, e a Esplanada dos Ministérios começa a esvaziar seus gabinetes antes do horário. Oficiais alegam cuidados com a família, interesses particulares, compromissos inadiáveis. Extraoficialmente, o calendário explica melhor: eleições.
Eleições são a palavra-chave que dá sentido ao barulho. Na guerra das urnas, vale quase tudo. E poucas armas são tão eficientes quanto a insinuação do roubo. Dizer “roubaram” costuma ser mais eficaz do que provar qualquer coisa. O suposto “ladrão” não precisa ser condenado nos tribunais; basta ser derrotado nas urnas. O julgamento é sumário, a sentença vem pelo voto, e a absolvição raramente encontra espaço depois.
Há algo de estranho no ar, e não é apenas o cheiro de papel velho reciclado em manchete nova. Quando narrativas são lançadas como panfletos em voo rasante, pouco importa se são verdadeiras ou falsas — o que conta é o estrago que produzem ao tocar o chão. E quem deixa Brasília apressadamente, de volta à sua cidade de origem, não pode fazê-lo fingindo ignorância. As digitais ficam. Estão na caixa-preta desse imbróglio, registradas não em tinta, mas em decisões, omissões e conveniências.
Papéis podres, como se sabe no campo, nem sempre fertilizam a terra. Às vezes, apenas anunciam a quebradeira — da lavoura, do banco ou da própria política.
Mantida a linha de raciocínio inspirado no que se considera parte do folclore mineiro, os fatos mais recentes funcionam como um balde de água fria sobre a fogueira que alguns insistem em manter acesa. Na segunda, 19, o Banco BRB tratou de afastar, de forma objetiva, qualquer risco de intervenção e reafirmou possuir suficiência patrimonial para atravessar o período de apurações envolvendo o Banco Master. Não há colapso à vista, nem cenário de terra arrasada, ao contrário do que sugerem narrativas apressadas, quando não mal-intencionadas.
Em nota, o banco controlado pelo Governo do Distrito Federal deixa claro que estuda a venda de ativos recuperados do banco privado como estratégia de reforço de sua posição financeira. Trata-se de procedimento conhecido, previsto na boa técnica bancária, e que nada tem de excepcional ou emergencial. Não há corrida contra o tempo, tampouco decisão tomada sob pânico. Há método, prudência e respeito aos ritos institucionais.
O BRB também esclarece que qualquer eventual medida de recomposição de capital só será analisada após a conclusão das auditorias independentes e das avaliações conduzidas pelo Banco Central. Ou seja, não se decide no grito, nem sob manchetes alarmistas. Decide-se com base em números auditados, laudos técnicos e responsabilidade institucional. Ou seja, exatamente o oposto do ambiente de histeria que alguns tentam fabricar.
Caso, ao final desse processo, seja identificada a necessidade de recomposição de capital, o banco afirma dispor de plano estruturado para tanto. E faz questão de sublinhar um ponto sensível ao debate público: eventual aporte do acionista controlador não implicaria retirada de recursos do orçamento destinado às políticas públicas. O cofre social não seria aberto para cobrir fantasmas financeiros.
Na mesma linha de contenção de danos, o Ministério da Fazenda negou formalmente que o ministro Fernando Haddad tenha tratado com o GDF ou com a direção do BRB sobre aporte imediato de capital sob risco de intervenção. A nota veio em resposta direta a versões fabricadas por cabeças-ocas de plantão, que tentaram atribuir ao ministro cobranças e prazos inexistentes, como se a narrativa, repetida à exaustão, pudesse virar fato consumado.
O banco também informa que os valores de eventuais prejuízos ainda estão em apuração, conduzida por auditoria independente e acompanhada pelo Banco Central. Todas as operações relacionadas ao caso estão sob investigação forense, realizada por escritório especializado e com ciência das autoridades competentes. Nada está sendo varrido para debaixo do tapete; ao contrário, tudo está sendo iluminado com a lanterna técnica que o caso exige.
Enquanto isso, o BRB segue operando normalmente. Agências abertas, sistemas funcionando, compromissos honrados. Qualquer número divulgado fora dos canais oficiais, ressalta a instituição, não passa de especulação do tipo que se alimenta mais de interesse político do que de realidade contábil.
No fim das contas, o que se vê é menos uma crise bancária e mais uma tentativa de semear desconfiança em terreno eleitoralmente fértil. Como no velho caso mineiro, os panfletos mudaram de forma, mas continuam sendo lançados do alto, na esperança de provocar correria cá embaixo. A diferença é que, desta vez, os dados, os comunicados oficiais e o acompanhamento institucional funcionam como cerca alta, capaz de conter a praga antes que ela alcance a lavoura.
Em síntese, estão apostando em runas tentando atingir a urna alheia. A questão dos manipuladores da verdade é aceitar que Brasília não é um apêndice escandinavo.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
