Alberto de Oliveira, consagrado como um dos líderes do Parnasianismo brasileiro, construiu uma reputação assentada na disciplina do verso, no apuro técnico e na paciência de quem trata a linguagem como matéria concreta. Farmacêutico e professor, exerceu a direção da Instrução Pública no antigo Estado do Rio de Janeiro, função equivalente, em termos contemporâneos, à de secretário estadual de Educação, por duas administrações, e foi também fundador da Academia Brasileira de Letras. Sua obra, marcada pela arquitetura do soneto e por títulos como Meridionais e Sonetos e Poemas, ajuda a compreender por que, no fim do século XIX, a forma ganhou entre nós o estatuto de consciência estética.
Conta-se que Augusto Frederico Schmidt, amigo de Alberto, subiu a Petrópolis, onde o poeta então morava, levando consigo um candidato à ABL em busca de voto. Numa tarde fresca da serra, ouviram o velho vate recitar versos de sua lavra com voz ainda firme, enquanto a cabeleira branca se movia ao vento. Schmidt abriu a pasta e puxou um volume pesado de suas poesias reunidas, pedindo ao anfitrião que o autografasse. Alberto, com uma frase que mistura ironia e doutrina, deixou o aforismo: “livro que não fica em pé na estante, não fica em pé na eternidade.”
A JANELA E O SOL
“Deixa-me entrar, – dizia o sol – suspende
A cortina, soabre-te! Preciso
O íris trêmulo ver que o sonho acende
Em seu sereno virginal sorriso.
Dá-me uma fresta só do paraíso
Vedado, se o ser nele inteiro ofende…
E eu, como o eunuco, estúpido, indeciso,
Ver-lhe-ei o rosto que na sombra esplende.”
E, fechando-se mais, zelosa e firme,
Respondia a janela: “Tem-te, ousado!
Não te deixo passar! Eu, néscia, abrir-me!
E esta que dorme, sol, que não diria
Ao ver-te o olhar por trás do cortinado,
E ao ver-se a um tempo desnudada e fria?!”
A ALMA DOS VINTE ANOS
A alma dos meus vinte anos noutro dia
Senti volver-me ao peito, e pondo fora
A outra, a enferma, que lá dentro mora,
Ria em meus lábios, em meus olhos ria.
Achava-me ao teu lado então, Luzia,
E da idade que tens na mesma aurora;
A tudo o que já fui, tornava agora,
Tudo o que ora não sou, me renascia.
Ressenti da paixão primeira e ardente
A febre, ressurgiu-me o amor antigo
Com os seus desvairos e com os seus enganos…
Mas ah! quando te foste, novamente
A alma de hoje tornou a ser comigo,
E foi contigo a alma dos meus vinte anos.
O ÍDOLO
Sobre um trono de mármore sombrio,
Em templo escuro, há muito abandonado,
Em seu grande silêncio, austero e frio
Um ídolo de gesso está sentado.
E como à estranha mão, a paz silente
Quebrando em torno às funerárias urnas,
Ressoa um órgão compassadamente
Pelas amplas abóbadas soturnas.
Cai fora a noite – mar que se retrata
Em outro mar – dois pélagos azuis;
Num as ondas – alcíones de prata,
No outro os astros – alcíones de luz.
E de seu negro mármore no trono
O ídolo de gesso está sentado.
Assim um coração repousa em sono…
Assim meu coração vive fechado.
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Antônio Mariano Alberto de Oliveira nasceu em Saquarema, a 28 de abril de 1857, e morreu em Niterói a 19 de Janeiro de 1937.
