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Pastiches estão na moda

O descomunal poeta Fernando Pessoa traduziu o poema Annabel Lee, do igualmente grande Edgar Allan Poe. Confesso, não gostei muito do resultado. Poe utiliza rimas que soam como “i”, a começar pelo nome da moça, enquanto Pessoa partiu para as rimas em “ar” (mar, adorar, invejar e por aí vai). Aí pensei, foi uma limitação da língua portuguesa que tolheu Pessoa; e se fosse escancarado o lusitanismo, com rimas em “ão”? O resultado está aí.

Havia em reino distante,
Em tempos que já lá vão,
Uma padeira possante,
Minha Maria do pão.
Eu chegava, no mesmo instante
A gente transava no chão.

Os braços fortes de Maria
Me sovavam feito pão.
“Nosso amor é mais que amor”,
Eu dizia à multidão.
E os anjos sentiram inveja,
Cambuta de capetão.

Foi por isso que nesse reino,
Em tempos que já lá vão,
Um vento saiu de uma nuvem
E gelou Maria do pão.
Seu pai me roubou a amada
E a colocou num caixão.

Mas nosso amor era mais que amor,
Como eu disse à multidão.
E nada me separou
De minha Maria do pão.
Sem ter seu corpo, que dor,
Amei-a numa canção.

Por isso, ninguém se esquece
Da minha Maria do pão.
Muita gente muda os versos,
Solta a imaginação
Mas nada se iguala à balada
Que fiz, com dor e emoção.

E os anjos e os demônios
Bem que tentam, mas não
Me impedem de lembrar
Da minha Maria do pão.
E todas as noites eu durmo
Junto a ela, ao seu caixão.

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