A Polícia Civil do Distrito Federal deu início a uma investigação rigorosa para desarticular um “clube da luta” clandestino que operava em uma residência de alto padrão no Lago Sul. O esquema, voltado majoritariamente para o público jovem, promovia combates físicos reais sem qualquer regulamentação ou segurança. A prática ilegal chamou a atenção das autoridades após a ampla divulgação de vídeos das lutas em redes sociais, expondo a violência dos encontros.
Os eventos ocorriam no jardim de uma casa situada na QI 17, uma das áreas mais nobres da capital federal. No local, os organizadores montavam tatames improvisados onde os adolescentes se enfrentavam sob o olhar de dezenas de espectadores. A estrutura precária contrastava com a organização logística do grupo, que transformava a violência gratuita em um espetáculo remunerado e coreografado para o ambiente digital.
Para participar ou assistir aos embates, havia uma cobrança sistemática de ingressos, evidenciando o caráter comercial da iniciativa. Homens pagavam R$ 30 e mulheres R$ 25. O lucro obtido com as entradas alimentava a continuidade dos eventos, que eram transmitidos ao vivo pelas redes sociais para atrair novos seguidores e competidores interessados no “clube”.
A dinâmica de recrutamento era feita de forma aberta na internet, onde jovens entre 15 e 19 anos se candidatavam para lutar. Os anúncios eram detalhados, funcionando como uma espécie de “card” profissional, incluindo informações sobre peso, idade e experiência prévia em artes marciais. Grupos de WhatsApp também eram utilizados como ferramentas centrais para a marcação das lutas e a divulgação dos endereços.
Imagens chocantes obtidas pela investigação mostram a gravidade das agressões. Em um dos registros, um adolescente aparece com o nariz sangrando intensamente após um combate, sendo parabenizado pelos presentes pela “performance”. Devido ao envolvimento de menores de 18 anos, as autoridades preservaram as identidades, mas o conteúdo serve como prova material da exposição ao perigo a que esses jovens eram submetidos.
O evento mais recente registrado pelas autoridades aconteceu na última sexta-feira (17), servindo como estopim para a intervenção policial. A 10ª Delegacia de Polícia assumiu o caso e trabalha agora no monitoramento das postagens para rastrear a origem das convocações. O foco central da investigação é identificar quem são os proprietários do imóvel e qual o grau de conivência com as atividades ilícitas.
Além da polícia, o Conselho Tutelar do Distrito Federal classificou a denúncia como extremamente grave. O órgão confirmou que já recebeu relatos preocupantes indicando que adultos podem estar não apenas cientes, mas ativamente incentivando e organizando os confrontos. A presença de maiores de idade como mentores desses eventos eleva o patamar jurídico das possíveis punições.
A Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus) também se manifestou, garantindo que todas as medidas cabíveis estão sendo adotadas para proteger os direitos das crianças e adolescentes envolvidos. A pasta acompanha de perto o desenrolar do inquérito para assegurar que os responsáveis respondam civil e criminalmente pela exposição dos jovens a riscos físicos e psicológicos.
Especialistas alertam que a prática, além de ilegal, configura uma violação direta ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A falta de equipamentos de proteção, supervisão médica e autorização dos órgãos esportivos torna cada luta um cenário potencial para tragédias permanentes. A polícia espera que a identificação dos líderes sirva de exemplo para coibir iniciativas semelhantes em outras regiões do DF.
Nas próximas semanas, os organizadores identificados e os responsáveis pela residência na QI 17 devem ser intimados a prestar depoimento. A investigação segue em sigilo para mapear a extensão da rede e verificar se há outros endereços sendo utilizados para o mesmo fim. O objetivo final é desmantelar completamente a estrutura digital e física que sustenta esse mercado clandestino de violência juvenil.
