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Polícia engatilha voto para tirar Sinpol do fracassado Wellington

Policial tem um poder consagrado em lei: proteger a sociedade, investigar crimes e algemar bandidos. Não está escrito, em lugar algum, que esse poder autoriza transformar sindicato em curral, Parlamento em puxadinho e o Estado em quintal privado. Mas há quem leia a Constituição como quem lê escritura de cartório colonial.

É o caso de Wellington Luiz, presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Policial-deputado, Wellington comporta-se como se a farda lhe concedesse salvo-conduto vitalício. Fez do Sinpol uma extensão doméstica do próprio mandato, como se sindicato fosse herança de família, e da CLDF um anexo mal disfarçado do Palácio do Buriti. Um apêndice sindical de um deputado que, por sua vez, age como apêndice obediente do Executivo local.

Nesse jogo de espelhos, manda e desmanda. Invade área pública em região nobre da capital da República, ergue mansão, posa de intocável e segue imune — como se o poder político fosse antídoto contra a lei que jurou cumprir.

Mas toda capitania hereditária tem prazo de validade. E este parece perto do vencimento.

Correntes distintas da Polícia Civil decidiram fazer o que raramente se vê em Brasília: unir-se contra o abuso, não para tomar o poder pela força, mas para retomá-lo no voto. A decisão, tomada em reunião na sexta-feira, 29, é clara e simbólica: usar as urnas como algemas, para prender a continuidade desastrosa de um projeto personalista que desgasta a categoria e humilha o sindicato.

A metáfora é precisa. Se Wellington transformou o Sinpol em feudo, a polícia decidiu promover uma revolta de vassalos muito organizados, legalizados e democratas.

A articulação tem madrinha conhecida e digitais inconfundíveis. É Érika Kokay (PT). Para encabeçar a chapa de oposição que promete desmontar o sistema de capitania hereditária instalado no sindicato, surge Fábio Barcellos como um nome de peso. Ele é respeitado, experiente e com história escrita não em gabinete, mas na linha de frente da corporação.

Ao seu lado, empunhando o estandarte da moralidade e da independência sindical, está Daniel Barros, policial que se tornou o principal rosto da oposição à atual diretoria. Barros não é um neófito. Tanto, que foi o único policial do Distrito Federal a integrar o gabinete de transição do governo Lula. Ele mantém diálogo direto com o Planalto e transita com naturalidade entre figuras centrais do poder federal, como Gleisi Hoffmann e a própria Érika Kokay.

O retorno oficial de Barcellos ao cenário ativo caiu como granada no meio político-sindical do Distrito Federal. Fundador do primeiro sindicato de policiais do Brasil, ex-presidente do Sinpol e ex-presidente da própria Câmara Legislativa, ele conhece por dentro o jogo que Wellington tenta eternizar.

A aliança entre Barcellos e Barros é vista, nos bastidores, como uma chapa explosiva. Não apenas pelo potencial eleitoral, mas pelo simbolismo, já que representa o fim do sindicato como puxadinho político e a tentativa de resgatar sua função original de defender policiais, não projetos pessoais.

As eleições do Sinpol, marcadas para março, acontecem no mesmo ano das eleições gerais. Se confirmada a virada, o impacto não será apenas sindical. Pode redesenhar o tabuleiro da segurança pública e produzir reflexos diretos na política local e nacional. E isso ocorre em Brasília, onde muitos acreditam que o poder é vitalício, mas a polícia decidiu lembrar uma regra básica da democracia: todo mandato acaba — especialmente os que confundem autoridade com propriedade.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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