A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) concluiu o inquérito sobre uma série de mortes suspeitas ocorridas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga. O relatório final, encaminhado ao Ministério Público, indicia três técnicos de enfermagem por homicídios triplamente qualificados. A investigação aponta que as vítimas teriam recebido substâncias fatais enquanto estavam sob os cuidados dos profissionais no final de 2025.
Os indiciados foram identificados como Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos; Marcela Camilly Alves da Silva, de 22 anos; e Amanda Rodrigues de Sousa, de 28 anos. O Tribunal do Júri de Taguatinga acatou o pedido de conversão das prisões temporárias em preventivas, o que significa que o trio permanecerá detido por tempo indeterminado enquanto o processo judicial avança.
As autoridades confirmaram que o Ministério Público já denunciou os profissionais à Justiça, que agora decidirá se eles se tornarão réus. O caso, que corre sob sigilo, detalha a morte de três pacientes específicos: a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, e os servidores públicos João Clemente Pereira, de 63 anos, e Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos.
A Coordenação de Repressão a Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP) enquadrou as mortes como homicídios triplamente qualificados. As qualificadoras incluem o emprego de veneno, a traição e o uso de meio insidioso ou recurso que dificultou a defesa das vítimas. Marcos Vinícius e Marcela respondem pelos três óbitos, enquanto Amanda foi indiciada por dois deles.
Somadas, as penas para esses crimes podem chegar a patamares severos. Caso sejam condenados pela classificação atual, Marcos Vinícius e Marcela enfrentam uma sentença de até 90 anos de reclusão. Já Amanda Rodrigues, indiciada em dois dos três casos concluídos, pode ser condenada a até 60 anos de prisão.
A defesa de Marcos Vinícius manifestou surpresa com a manutenção da prisão. O advogado Reinaldo França Lopes classificou a decisão judicial como uma “antecipação de pena”, sustentando que seu cliente tem colaborado com as investigações desde que foi detido em janeiro. O hospital e os demais advogados ainda não detalharam suas estratégias de defesa pública.
Entretanto, o desfecho do inquérito pode ser apenas a ponta do iceberg. A Polícia Civil investiga outras sete mortes suspeitas ocorridas na mesma UTI ao longo do ano passado. Familiares de outros pacientes que faleceram na unidade prestaram depoimentos relatando a presença dos técnicos investigados nos leitos de seus parentes pouco antes dos óbitos.
Um dos casos em aberto é o da servidora pública Rosângela Mendes Ramos, que morreu após uma parada cardiorrespiratória. Sua filha, Letícia, registrou boletim de ocorrência após a prisão dos técnicos, buscando respostas para a perda repentina da mãe. “A gente achou que tinha sido natural, e de repente descobre que alguém pode ter abreviado a vida dela”, desabafou.
Letícia relatou ainda dificuldades para acessar informações detalhadas junto à instituição de saúde. Ao solicitar o prontuário de Rosângela, a direção do hospital teria entregue uma caixa com 2,5 mil páginas. Para a filha da vítima, a entrega do documento de forma desorganizada soou como uma tentativa de dificultar a compreensão dos fatos e a busca por justiça.
A PCDF pretende estender a análise para todos os óbitos registrados durante os plantões de Marcos Vinícius, visando identificar se o padrão criminoso foi aplicado em mais ocasiões. Não há um prazo definido para o encerramento total das investigações, uma vez que o volume de prontuários e dados médicos a serem periciados é considerado extenso pelos investigadores.
