A prisão de três técnicos de enfermagem suspeitos de provocar a morte de pacientes dentro da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Anchieta, em Taguatinga, expõe um dos episódios mais graves já registrados na saúde privada do Distrito Federal. A investigação, conduzida pela Polícia Civil do DF, trata os casos como homicídio doloso qualificado, com indícios de método repetido, uso de substância letal e extrema frieza na execução.
Os presos são Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva. Segundo a PCDF, ao menos três pacientes morreram entre novembro e dezembro de 2025 após terem recebido aplicações intravenosas de uma substância fora de qualquer protocolo médico, capaz de provocar parada cardíaca em poucos minutos e de difícil detecção em exames iniciais. Em um dos casos, o próprio delegado Wisllei Salomão afirmou que foi utilizado produto químico de limpeza, aplicado diversas vezes com seringa diretamente na vítima.
A apuração integra a Operação Anúbis, deflagrada pela Coordenação de Repressão a Homicídios e de Proteção à Pessoa. Na primeira fase, em 11 de janeiro, dois investigados foram presos temporariamente e mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas. Já na segunda fase, em 15 de janeiro, houve nova prisão e apreensão de aparelhos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia, ampliando o raio da investigação.
O próprio Hospital Anchieta denunciou o caso às autoridades após identificar circunstâncias atípicas em três óbitos na UTI. Em nota, a instituição informou que instaurou comitê interno de investigação, identificou evidências em menos de vinte dias, comunicou as famílias e solicitou a abertura de inquérito policial, além das prisões cautelares. O hospital afirma colaborar integralmente com as autoridades e ressalta que o caso tramita em segredo de justiça.
As vítimas identificadas são Miranilde Pereira da Silva, professora aposentada de 75 anos; Marcos Moreira, 33 anos, servidor dos Correios; e João Clemente Pereira, 63 anos, servidor da Caesb. Miranilde morreu em 17 de novembro de 2025 após receber, segundo a polícia, ao menos dez aplicações de desinfetante. Lotada na Regional de Ensino de Ceilândia, ela deixou filhos, netos e uma trajetória marcada pelo compromisso com a educação pública, como destacou o Sinpro em nota de pesar.
Marcos Moreira deu entrada no hospital com dores abdominais e morreu no dia 1º de dezembro. Morador de Brazlândia, deixou uma filha de 5 anos. O Sindect-DF lamentou a morte do carteiro, que, segundo a família, chegou à UTI consciente e conversando normalmente com a equipe médica. Já João Clemente foi internado após diagnóstico de coágulo no crânio, passou por cirurgia, apresentou melhora clínica, mas sofreu quatro paradas cardíacas em 18 de novembro. Prestes a se aposentar, deixou esposa, dois filhos e um neto.
Durante os depoimentos, os investigados inicialmente negaram os crimes, alegando cumprir ordens médicas. Confrontados com provas técnicas e registros de plantão, confessaram parte das condutas, sem demonstrar arrependimento ou explicar a motivação. A polícia agora investiga se houve padrão de atuação, possível participação de outros envolvidos e falhas institucionais que permitiram os crimes dentro da unidade hospitalar.
O Conselho Regional de Enfermagem do DF (Coren-DF) informou que instaurou procedimento ético para apurar a conduta dos profissionais e destacou que, caso confirmadas irregularidades, haverá responsabilização conforme o Código de Ética da categoria.
Como se não bastasse o choque inicial, a PCDF apura agora pelo menos 20 outros atestados de óbito em hospitais do Distrito Federal. A investigação ainda está em curso, mas o caso já escancara um alerta incômodo: quando quem deveria cuidar passa a representar risco, não é apenas um crime comum — é uma ruptura brutal do pacto básico de confiança na saúde.
