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Portugueses fazem valer espírito da democracia

Em abril de 1974, por meio da Revolução dos Cravos, Portugal colocou fim a uma ditadura fascista iniciada ainda na segunda década do século 20. Desde então se cultiva um apreço à democracia e às liberdades individuais, o que tornou o dia 25 de abril, dia da revolução, no mais importante feriado do calendário Português, dia em que se celebra o fim do medo, da perseguição política, da liberdade e da garantia de direitos consagrados na Constituição. Quase a totalidade dos agentes políticos, das organizações da sociedade civil, sindicatos, academia e também agentes da mídia fazem questão de cristalizar no imaginário do povo português o espírito derivado da luta contra a ditadura, e da suprema importância de um regime de liberdade que respeito o cidadão e as diferenças de pensamento e opinião.

Embora Portugal, assim como em praticamente toda a Europa e países mais desenvolvidos, veja um crescimento preocupante de um espectro político que prega o ódio e a intolerância, materializados principalmente em um discurso xenofóbico e contra a liberdade de gênero e cultural, o segundo turno das eleições presidenciais ocorridas no último dia 08 de fevereiro demonstrou que a grande maioria do povo português rejeita o retorno aos tempos sombrios em que os cidadãos tinham medo de serem cidadãos.

A disputa colocou de um lado um candidato de centro esquerda e um populista de extrema direita. E o resultado, para alívio do mundo democrático e de todos os que lutam pela paz, pela tolerância, pelo respeito e pela liberdade foi uma acachapante vitória do candidato de centro esquerda Antonio José Seguro, que assumirá um mandato de cinco anos em março próximo.

O candidato derrotado, André Ventura, o rosto da intolerância em Portugal, ainda teve um desempenho surpreendente, alcançando 32,96% dos votos válidos, muito devido a um discurso racista, xenofóbico e falso de combate a corrupção, falso até porque diversos membros de seu partido, o Chega, estão envolvidos em escândalos de corrupção e até de roubo de malas, sem esquecer diversos eventos de violência contra imigrantes.

Óbvio que é preocupante o desempenho de André Ventura, que alcançou um terço dos votos dos portugueses. Porém, há que ser ressaltado elementos que evidenciam a importância da vitória de Seguro. O percentual de 67,04% dos votos válidos, o dobro do adversário, o fato de não ter se elevado a abstenção, mesmo com tempo instável e a ocorrência de tempestades em todo o país, mesmo sendo o voto facultativo, o expressivo número de votos recebidos por Seguro, que constitui a maior votação em um candidato na história em eleições presidenciais. São sinais significativos que demonstram a vitalidade da democracia portuguesa, e a suprema importância de se lembrar sempre que não se pode permitir o retorno de tempos sombrios. Que isto sirva de lição para o Brasil, que ainda elege falsos mitos que defendem ditadura, tortura e eliminação física de quem pensa diferente.

Fato lamentável nestas eleições foi a vitória de Ventura dentre os votos dos imigrantes portugueses, inclusive no Brasil, constituindo uma surpreendente contradição de voto em um candidato que faz de sua vida política uma cruzada contra a imigração. Mesmo assim, cabe destacar que a vitória na imigração ocorreu principalmente em países onde a extrema direita cresce e é mais tolerada como Brasil, Argentina, Chile, EUA e Israel. Uma maior tolerância, especialmente da mídia, concorre para isto. Exemplo claro é o Brasil, onde a mídia não tem coragem de enfrentar o extremismo de direita, e em diversas ocasiões até faz coro com ela. Tempos alvissareiros despontam em Portugal.

Ainda sobre eleições, a nota destoante e triste ocorre em função do avanço da extrema direita na Espanha, vizinha portuguesa na Península Ibérica. Na região autônoma de Aragão, o partido extremista de direita Vox dobrou sua presença no parlamento regional, subindo de 7 para 14 deputados regionais. O perdedor foi o Partido Socialista do Primeiro Ministro Pedro Sanches, que viu sua participação cair de 23 para 18 parlamentares. É um sinal muito ruim nas eleições regionais de Aragão, isto depois de o PSOE (no governo)ter perdido eleições regionais em outra região autônoma, a Extremadura. Isto aponta para uma grande dificuldade do atual governo nas próximas eleições gerais a serem realizadas em 2027, e levanta o alerta para um crescimento do extremismo de direita na Espanha, país que atualmente tem uma política migratória mais humana que diversos outros países da Europa.

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Antonio Eustáquio é correspondente de Notibras na Europa

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