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Primo rico e primo pobre

Não sei se você conhece o antigo quadro humorístico Primo rico e primo pobre, criado por Max Nunes e encenado pelos lendários Paulo Gracindo e Brandão Filho. Além de ser muito engraçado, esteve no ar por décadas. Bem, não sou historiador que nem o escritor Daniel Marchi, mas não consegui deixar de imaginar o que aconteceu minutos antes de a esquete entrar no ar na rádio Nacional, em 1950.

Paulo Gracindo havia sido escalado para ser o primo pobre, enquanto caberia ao Brandão Filho interpretar o parente abastado. Mas eis que Gracindo, diante da figura inconfundível do colega de ofício, virou-se para o diretor e disparou:

— Não posso ser o primo pobre. Tem que ser o Brandão Filho.

— Mas, Paulo, por quê?

— Olhe pra cara dele. Ele tem cara de pobre, cara de coitado. Eu tenho cara de rico.

— Mas, Paulo, isso é rádio. Ninguém vai ver vocês.

— Não importa! Eu sei!

Para não atrasar a programação, os papéis foram invertidos, conforme Paulo Gracindo bateu o pé. E se transformou em sucesso tremendo, inclusive quando, anos depois, passou para televisão.

Bem, não estou aqui para falar sobre esses atores que fazem parte da cultura brasileira, mas dos jovens Igor e Leonardo, que eram primos de verdade. O primeiro poderia facilmente interpretar o primo rico, enquanto Leonardo, todos diriam, se encaixaria perfeitamente no papel do primo desprovido de recursos.

Os dois rapazolas teriam ido a uma grande empresa de importação a fim de tentarem ser contratados, mesmo não possuindo qualquer experiência anterior. Para encurtar a história, eis que, após ambos serem entrevistados por um diretor, Leonardo foi contratado para o cargo de gestor de estoque. Lógico que ele ficou feliz da vida e, na semana seguinte, começou a trabalhar.

Quanto ao Igor, em vez de aceitar ser auxiliar do primo, declinou da proposta de emprego e foi embora. Mal chegou ao lar, doce lar, encontrou a mãe e a avó tomando café na cozinha.

— E aí, filho, foi contratado?

— Não, mãe. Mas o Leonardo foi.

— Hum. Acontece.

— Puxa, mãe, maior injustiça!

— O que houve, filho?

— Eles contrataram o Leonardo e queriam que eu fosse subalterno dele. Acredita nisso? Logo eu, com essa cara de príncipe!

A mãe tentou consolar o rapaz, enquanto a avó, mais sábia, não deixou de externar sua opinião.

— Que entrasse em um cargo inferior, não importa. O negócio é entrar. Depois que entra, se resolve. Ou não, mas pelo menos já estaria dentro.

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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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