Notibras

Produzia um conto atrás do outro

Ele gostava de escrever, precisava escrever, produzia um conto atrás do outro. Não apenas para expressar suas ideias e sentimentos; também, e principalmente, para exibir sua habilidade com as palavras, abrir sua cauda de pavão literário e seduzir os leitores. Era isto: tinha necessidade de cativá-los, laçá-los, aprisioná-los, domesticá-los, viciá-los em seus textos, com seus textos. Queria que suas palavras se enredassem em torno do leitor e o conduzissem, submisso, a uma situação em que lê-las lhe fosse tão indispensável quanto o ar que respirava.

Mas isso não acontecia, pelo menos, não que ele soubesse. Tinha váriasdezenas de leitores do joinha, do polegar para cima, e um número um pouco menor na bancada do amei, do haha, do triste e de outras reações padronizadas, administradas pelos algoritmos das redes sociais. Ainda menos numerosos eram os que escreviam comentários sobre seus escritos, e raridades, pérolas em meio à lama, os que postavam observações que o fizessem refletir ou descortinassem dimensões desapercebidas por ele próprio. Quando isso acontecia, ficava emocionado, iniciava uma troca de ideias em seu perfil ou pelo private – e então o leitor simplesmente deixava de responder, como se desaparecesse, como se jamais tivesse existido. Decepcionado, resmungava algo como “leitores, bah! Bando de fiodamãe”, sentava-se diante do computador e continuava a criar contos. Escrever era preciso, trocar ideias com leitores volúveis, que o abandonavam sem mais, não era preciso.

Nesse mesmo momento, a centenas de quilômetros da cidade do contista, um leitor mergulhava em um de seus textos. Era a segunda vez que o lia; agora, repetia em voz alta passagens marcantes, deixava-se embalar pelo ritmo das frases, pela música dos vocábulos, pelas aliterações e imagens. Não por acaso, era um dos leitores mais fiéis, um dos críticos mais argutos do contista.

Nesse instante, algumas palavras na página começaram a refulgir.

O leitor não percebeu, tinha os olhos fechados enquanto murmurava as palavras de uma passagem que o comovera.

As palavras reluzentes saíram da página, formaram um laço no ar, enrolaram-se em torno do pescoço do leitor e apertaram com força.

Se este se deixasse docemente submeter, se declarasse subjugado pela magia daquela escrita, daquelas palavras, provavelmente escaparia. Adivinhar a resposta correta, porém, a reação de sobrevivência, era pedir demais a um homem que acabara de ter o maior susto – e o último – de sua vida. Ele tentou desvencilhar-se, o laço apertou, inexorável… Fim.

Naquele momento, em uma cidade bem distante das do leitor e do contista, uma mulher seguia, encantada, a trama do conto. Tão logo terminou, releu-o devagar, saboreando a melodia das palavras.

Na página, as palavras começaram a brilhar. Ela não notou, a campainha havia tocado, dirigiu-se à porta.

As palavras que ensaiado escapar e armar o laço aquietaram-se na página, impassíveis, imóveis, à espera de um leitor a ser subjugado. Da próxima vítima.

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