Todo mundo sabe que o PT é o partido mais popular entre os brasileiros. Isso não é novidade para ninguém que acompanha minimamente a história política do país. O Partido dos Trabalhadores é uma das siglas mais longevas da nossa democracia recente, nunca mudou de nome e construiu uma identidade muito clara ao longo das décadas. Além disso, carrega figuras históricas que se confundem com a própria trajetória do partido, e é impossível não citar o presidente Lula, que virou símbolo, referência e, para muitos, sinônimo da legenda.
Por isso, é absolutamente natural que o PT seja também o mais querido e o mais lembrado. Foi exatamente isso que revelou a pesquisa do DataFolha divulgada ontem. Segundo o levantamento, a legenda de Lula é a preferida de 24% da população brasileira. Já o PL, partido associado ao ex-presidente Bolsonaro, aparece com metade disso: 12% da preferência dos eleitores. Os números confirmam o que já se percebe nas ruas, nas conversas de família, nos debates políticos e até nas redes sociais.
Mas o dado que mais me chamou atenção não foi esse. O mais intrigante veio de outra pesquisa do próprio DataFolha, divulgada na semana passada. Nela, 34% dos eleitores que se dizem petistas afirmam se identificar com a direita. Ao mesmo tempo, 14% dos bolsonaristas dizem se enxergar como pessoas de esquerda. À primeira vista, isso soa contraditório, quase ilógico.
Houve quem interpretasse esses números como pura ignorância do eleitorado, como se as pessoas simplesmente não soubessem o que estão dizendo. Eu prefiro não cair nessa explicação fácil, que costuma ser um tanto arrogante. É possível que exista, sim, algum grau de desconhecimento conceitual, afinal, nem todo mundo vive imerso em debates acadêmicos ou em manuais de ciência política. Mas reduzir tudo a isso me parece insuficiente.
Talvez a política não seja assim tão simples de definir. Talvez essas categorias rígidas de direita e esquerda não deem conta da complexidade da vida real. No Brasil profundo, nos rincões do país, existem experiências concretas que não cabem perfeitamente nessas caixinhas ideológicas. Há gente que defende políticas sociais fortes, mas é conservadora nos costumes. Há quem rejeite rótulos, mas vota com base em memórias afetivas, em gratidão, em vivências muito particulares.
Tenho a impressão de que essas contradições revelam menos confusão e mais complexidade. Revelam um país diverso, desigual, cheio de nuances que muitas vezes escapam até mesmo aos analistas políticos mais experientes, formados nas melhores universidades. Talvez o eleitor brasileiro esteja dizendo, ainda que de forma imperfeita, que a política real é muito mais híbrida, ambígua e viva do que os gráficos e os rótulos costumam admitir.
