O desejo não nasce:
ele desperta das raízes ocultas,
como estrela enterrada no silêncio,
esperando o instante de cintilar.
Surge de uma profundidade antiga,
onde o fogo dorme como fera adormecida,
que desperta ao perfume do risco,
ao sopro secreto do crepúsculo.
Aparece quando duas presenças
se reconhecem na penumbra,
quando a respiração do outro
se torna próxima demais,
e o mundo, por um instante,
perde sua forma habitual.
Então o corpo decide,
antes que a razão desperte.
É pacto silencioso,
uma fenda de luz vermelha na noite,
uma corrente que arrasta,
como rio impetuoso após a tempestade.
Não há cálculo, nem desculpa:
apenas uma fome que vibra,
na raiz mais profunda do peito.
Lábios se aproximam,
como quem cruza um limiar sagrado;
mãos buscam territórios ocultos
com a ânsia febril
de quem sabe que arde em fogo,
e ainda assim se entrega,
porque nada pode deter
o que já começou a florescer.
Naquele instante de sombra e claridade,
o desejo se torna templo:
ali a vontade é sacrificada
na fogueira do toque,
ali o nome se dissolve,
e resta apenas o pulso,
sincero, inevitável,
nu como verdade.
Porque existem desejos que não são escolhidos,
desejos que assaltam,
desejos que rasgam a noite
com a fúria de um raio ardente.
E quando chegam,
não perguntam,
não esperam:
consomem,
transformam,
iluminam.
