Há algo profundamente errado quando a compaixão só desperta depois que a dor aparece na tela. Como se o sofrimento, para ser reconhecido, precisasse antes ser filmado, editado e publicado. Como se a vida, sem legenda, fosse invisível.
A morte de Isabel comoveu o Brasil. E com razão. Uma jovem enfrentando o câncer com coragem, atravessando tratamentos, recaídas e incertezas sem esconder o que doía. Sua exposição nunca foi um pedido de aplauso. Foi uma tentativa de existir quando a doença tenta reduzir uma pessoa a um prontuário.
Mas a maneira como sua história foi consumida revela algo mais inquietante.
Vivemos um tempo em que a dor precisa ser visível para ser reconhecida. A solidariedade já não brota apenas do encontro humano com a fragilidade do outro. Ela precisa ser ativada por uma narrativa, por um vídeo, por um post que atravesse o algoritmo. A dor que não vira conteúdo tende a não existir socialmente.
Milhares de pessoas atravessam cânceres, falências do corpo, diagnósticos terminais e despedidas todos os dias em silêncio. Lutam com a mesma coragem, às vezes com menos recursos, quase sempre sem plateia. A diferença entre elas e Isabel nunca esteve na dignidade da luta. Esteve na visibilidade.
Isso criou uma perversão sutil. Passamos a confundir importância com alcance. O que viraliza parece mais real do que o que simplesmente acontece.
Há ainda um segundo dano, talvez mais grave. Depois de anos de golpes emocionais, vaquinhas falsas, doenças inventadas para arrancar dinheiro e atenção, a confiança coletiva foi ferida. O resultado é cruel: até quem sofre de verdade passa a ser tratado como suspeito. A dor precisa apresentar provas. A compaixão virou condicional.
Isabel foi atravessada por isso. Houve quem duvidasse de sua doença. Não porque sua luta fosse duvidosa, mas porque o ambiente social já foi contaminado pela mentira. Quando a fraude se torna frequente, a verdade paga o preço.
E, por trás de tudo isso, há algo ainda mais perturbador. Para uma parte do público, histórias como a de Isabel já não são acompanhadas como encontros humanos. São consumidas como novela. Pessoas viram personagens. A doença vira enredo. A morte vira desfecho. A vida vira série. Não é empatia. É audiência.
Esse é o ponto mais duro. O sofrimento real não acontece para ser assistido. Não tem função dramática. Não existe para entreter, emocionar ou gerar engajamento. Ele existe porque a vida, às vezes, é brutal.
Isabel não foi uma personagem. Foi uma pessoa tentando continuar viva. Sua coragem de se expor não diminui isso, engrandece. O que deveria nos inquietar é um mundo que só aprende a enxergar o outro quando sua dor vira espetáculo.
Talvez o maior risco do nosso tempo seja este: transformar a vida dos outros em narrativa e esquecer que, fora da tela, a dor não pede curtida. Ela pede humanidade.
