O que aconteceu com a humanidade quando a cura passou a importar menos do que a aparência de quem a anuncia?
Nós assistimos, estarrecidas, a um médico ser atacado nas redes sociais não pelo conteúdo de sua descoberta a possível cura de uma das doenças que mais destroem corpos, famílias e histórias, mas por um sinal de nascença no rosto. Como se a ciência precisasse ser bela para ser legítima. Como se salvar vidas exigisse simetria facial.
Nós não estamos diante de um desvio isolado. Estamos diante de um sintoma civilizatório.
Guy Debord já havia diagnosticado a sociedade do espetáculo, onde a imagem vale mais do que a realidade e o parecer supera o ser. O que vemos agora é a radicalização desse processo: não basta que algo seja verdadeiro, eficaz ou transformador é preciso que seja esteticamente consumível. A ética foi substituída pelo filtro. A verdade, pelo enquadramento.
Nós aprendemos a amar o belo, mas desaprendemos a amar o necessário.
E isso não é inofensivo.
Byung-Chul Han aponta que vivemos na cultura da positividade, da superfície lisa, do corpo sem falha. Tudo o que lembra limite, imperfeição, dor ou finitude causa repulsa. Um sinal no rosto incomoda mais do que o câncer porque o primeiro nos confronta com a materialidade do corpo real aquele que envelhece, adoece, sangra e morre. O segundo, paradoxalmente, foi transformado em abstração estatística, em dado distante, em ruído.
Nós passamos a odiar quem nos lembra da condição humana.
Hannah Arendt falava da banalidade do mal, mas talvez hoje precisemos falar da banalidade da crueldade. Não é ódio ideológico sofisticado; é desprezo cotidiano, automático, algorítmico. Um desprezo que não se pergunta pelo impacto, apenas reage. Um desprezo que se sente autorizado porque está diluído em milhares de comentários, emojis e compartilhamentos.
O mais perverso é que esse ódio se apresenta como opinião.
Como se humilhar fosse liberdade de expressão.
Como se atacar fosse crítica.
Nós criamos uma ética invertida: o belo é amado, o eficaz é ignorado, o imperfeito é punido. A cura deixa de ser celebrada porque não corresponde ao imaginário estético que aprendemos a consumir. Como se a ciência tivesse obrigação de entreter. Como se a dor alheia precisasse ser visualmente agradável para merecer compaixão.
Susan Sontag já denunciava como as sociedades lidam mal com a doença porque ela rompe a narrativa de controle. A cura do câncer, anunciada por um corpo que foge do padrão, rompe duas ilusões ao mesmo tempo: a de que somos invencíveis e a de que só o belo merece atenção. Isso é insuportável para uma cultura fundada na aparência.
E então nós odiamos.
O que chamamos de belo precisa ser urgentemente revisto.
Belo não é simetria.
Belo não é pele lisa.
Belo não é conforto visual.
Belo é interromper o sofrimento.
Belo é devolver tempo de vida.
Belo é impedir que famílias enterrem quem amam cedo demais.
Se nós não conseguimos reconhecer beleza nisso, o problema não está no rosto de quem descobre a cura. Está em uma sociedade que perdeu completamente a capacidade de hierarquizar valores.
Quando a estética vence a ética, a humanidade adoece.
E talvez essa seja a doença mais difícil de curar.
