Há uma imagem recorrente nas guerras contemporâneas: meninas correndo entre escombros. Não aparecem nos discursos oficiais, raramente entram nas estatísticas que mobilizam indignação internacional, mas são parte silenciosa daquilo que chamamos de “danos colaterais”. O termo é técnico, burocrático. A realidade é brutal.
Durante operações militares autorizadas pelo governo de Donald Trump, ataques aéreos em regiões do Oriente Médio e da Ásia Central produziram aquilo que sempre produzem: civis mortos. Entre eles, meninas. Crianças cujas vidas estavam distantes das decisões geopolíticas que redefiniram seus destinos.
A guerra, historicamente, foi pensada como assunto de homens: generais, presidentes, estrategistas. Mas quem paga o preço cotidiano da violência armada são, majoritariamente, civis e entre eles, mulheres e crianças. A literatura feminista sobre segurança internacional há décadas denuncia esse apagamento. A cientista política Cynthia Enloe já demonstrava que a guerra reorganiza profundamente a vida das mulheres, ainda que raramente elas apareçam nos relatos oficiais do conflito.
Quando meninas morrem sob bombardeios, a narrativa dominante tende a dissolver suas histórias individuais dentro da abstração estratégica. Fala-se em “alvos”, “operações”, “neutralizações”. A linguagem militar transforma vidas em coordenadas.
Março, marcado pelo Dia Internacional da Mulher, costuma nos lembrar das conquistas femininas. No entanto, ele também deveria nos lembrar das vidas femininas que sequer tiveram tempo de reivindicar direitos. Meninas que não chegaram à idade adulta, não escolheram profissão, não escreveram seus próprios destinos.
Quando a política internacional aceita a morte de crianças como custo inevitável da estratégia militar, revela-se um problema ético profundo. A pergunta não deveria ser apenas quem venceu ou perdeu uma guerra, mas quem nunca teve chance de viver.
Entre as ruínas das cidades bombardeadas, restam mochilas escolares, brinquedos e roupas pequenas demais para caber nas estatísticas da geopolítica. Cada uma dessas meninas carregava um futuro possível. Um futuro interrompido antes de começar.
E talvez a pergunta mais incômoda seja esta: quantas mortes são necessárias para que o mundo reconheça que nenhuma guerra é realmente distante quando suas vítimas são crianças?
