Existe uma mulher por aí na verdade, existimos muitas.
Sem namorado, sem ajudante, sem ligações sorrateiras para preencher o silêncio da noite. Estamos sós. E isso não é ausência: é escolha, é travessia, é reconstrução. Há uma força silenciosa nesse estado que quase nunca é celebrada, porque a sociedade teme mulheres que não pedem colo para existir.
Nós aprendemos a confundir solidão com fracasso.
Mas Virginia Woolf já nos ensinava que uma mulher precisa, antes de tudo, de um espaço próprio e a solidão, muitas vezes, é esse quarto simbólico onde finalmente conseguimos respirar sem vigilância. Estar só é, para nós, uma forma radical de autonomia.
Estamos focadas em consertar a vida.
E consertar não é voltar ao que era antes, mas aceitar que algumas estruturas ruíram porque nunca foram seguras. Simone de Beauvoir dizia que não nascemos prontas: tornamo-nos. Tornar-se exige ruptura, exige silêncio, exige afastamento de tudo aquilo que nos definia apenas em função do outro.
Não há homem aqui para validar, prometer ou atrasar.
Há contas, há medos, há noites longas e há, sobretudo, dignidade. Djamila Ribeiro nos lembra que autonomia não é romantização da dor, mas a capacidade de escolher mesmo quando o caminho é árduo. Nós escolhemos ficar. Escolhemos nos organizar por dentro antes de oferecer qualquer coisa ao mundo.
A sociedade estranha quando não estamos disponíveis.
Quando não explicamos nossa ausência, quando não suavizamos nossa força, quando não pedimos desculpa por priorizar a própria sobrevivência emocional. Clarice Lispector já sabia: há mulheres que não cabem no amor romântico porque estão ocupadas demais aprendendo a existir em profundidade.
Onde quer que estejamos, irmãs, nós vamos ganhar.
Não porque tudo dará certo rapidamente, mas porque estamos fazendo o que quase ninguém tem coragem de fazer: encarar a própria vida sem anestesia. Ganhar, aqui, não é casar, não é provar nada a ninguém. Ganhar é não se abandonar. Ganhar é seguir, mesmo sozinhas, inteiras, conscientes de que a vida continua e agora, pela primeira vez, começa em nós.
