Quando eu era pequena,
meu pai sabia consertar o mundo
com uma chave de fenda
e duas palavras firmes.
Minha mãe tinha mãos mágicas
espantava febre,
remendava medos.
Eles eram gigantes.
Sabiam tudo.
Podiam tudo.
E eu caminhava pela vida
como quem atravessa um campo de batalha
escondida atrás de dois escudos invencíveis.
Um dia percebi fios brancos
onde antes havia força indomável.
Notei passos mais lentos,
um cansaço que não existia
quando me erguiam nos ombros
para que eu alcançasse o céu.
É estranho
há dor e há ternura no mesmo gesto.
Dói reconhecer a fragilidade
naqueles que me ensinaram a ser forte.
Dói ver as mãos que me sustentaram
precisando agora de apoio.
Mas há também uma alegria quieta,
uma beleza funda,
em poder retribuir.
Segurar o braço do meu pai
como ele segurou o meu
na primeira vez que atravessei a rua.
Repetir para minha mãe
que vai ficar tudo bem
com a mesma convicção
com que ela dizia isso
quando eu temia o escuro.
É um paradoxo delicado:
perder os heróis da infância
e, ao mesmo tempo,
descobrir que eles continuam heroicos
na coragem de envelhecer,
na dignidade das rugas,
na história que carregam na pele.
Eles já não sabem tudo.
Já não podem tudo.
Mas ainda são meu porto,
minha origem,
meu primeiro amor.
