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Quando o vermelho Marte marcha e Hades sorri

Na mitologia greco-romana, a guerra nunca chega sozinha. Quando Marte atravessa os céus, Hades não tarda a abrir os portões do submundo. Um governa o ímpeto, a violência, o choque frontal; o outro administra as consequências. Algo do tipo mortos, medo e o silêncio que se impõe depois do estrondo.

Os recentes ataques dos Estados Unidos à Venezuela, mais do que um episódio isolado, reacendem esse imaginário arcaico que insiste em retornar sempre que a diplomacia é substituída pela lógica do porrete. Não se trata apenas de um conflito regional, mas de um sinal civilizatório, sugerindo a normalização da força como instrumento legítimo de ordenamento global.

Na Roma antiga, Marte era celebrado como protetor do Estado. Mas até ali se sabia que sua presença constante indicava tempos de exceção. Já Hades, senhor invisível, não era temido por ser mau, mas por ser inevitável. Onde a guerra se instala, ele prospera — seja na contagem de cadáveres, seja na morte simbólica do direito internacional, das instituições multilaterais e da ideia de equilíbrio entre nações.

A pergunta que ecoa em 2026 é menos mitológica e mais política. Afinal, estamos entrando em um tempo em que volta a valer a lei do mais forte?

Os sinais são inquietantes. Grandes potências agem de forma cada vez mais unilateral, tratados são relativizados, organismos internacionais perdem autoridade e a retórica belicista volta a ser vendida como virtude. Marte marcha não apenas com tanques, mas com discursos inflamados, sanções seletivas e demonstrações calculadas de poder.

E Hades? Hades sorri no detalhe:

– no aumento dos deslocados e refugiados,
– na precarização das democracias,
– na naturalização da morte distante, transmitida por telas, estatísticas e mapas.

Mas a mitologia também ensina algo essencial: Marte nunca vence sozinho. Onde a guerra se prolonga, ela corrói até mesmo os vencedores. Impérios que se sustentam apenas pela força acabam soterrados por seus próprios escombros — lição repetida da Grécia a Roma, de Roma ao século XX.

O ano que se inicia, portanto, não precisa ser lido como um ano fatalmente condenado a batalhas sangrentas. Ele pode — e deve — ser interpretado como um ano-limite, em que a humanidade decide se seguirá adorando deuses antigos com armas modernas ou se ousará recuperar valores que pareciam superados nos níveis da negociação, soberania, equilíbrio e humanidade.

Isso porque a mitologia não prevê o futuro, mas faz um alerta. Quando Marte domina demais o cenário, é porque os mortais esqueceram que a guerra, no fim, sempre cobra seu preço. Já Hades jamais deixa dívidas em aberto.

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