Nós fomos embora não por falta de amor, mas por excesso de assimetria. Enquanto alguns estavam ocupados demais catalogando nossos defeitos, nós estávamos tentando sustentar o vínculo com tolerância, paciência e silêncio. Não porque não víamos tudo, mas porque escolhemos, por muito tempo, relevar.
Há um cansaço específico que nasce quando a relação se transforma em tribunal. Quando cada gesto nosso vira prova, cada palavra vira argumento contra nós, cada falha vira sentença. E, ainda assim, seguimos ignorando os defeitos do outro não por ingenuidade, mas por afeto. Porque amar, para nós, sempre foi mais sobre cuidar do que sobre vencer.
Nós aprendemos tarde que relações não sobrevivem quando só um lado faz concessões. Quando apenas um pede desculpas. Quando apenas um revisa comportamentos. Quando apenas um tenta crescer. A crítica constante, disfarçada de sinceridade, não constrói intimidade, corrói.
Enquanto nos apontavam imperfeições, nós estávamos ocupadas tentando manter a paz. Tentando não devolver na mesma moeda. Tentando acreditar que o amor também era esse esforço silencioso de não ferir. Mas existe um limite entre maturidade e autonegação. E esse limite, um dia, é atravessado.
Ir embora não foi impulso. Foi lucidez acumulada. Foi perceber que continuar exigiria que nos diminuíssemos ainda mais. Que ficássemos menores para caber em expectativas rígidas, em julgamentos constantes, em alguém que preferia corrigir a compreender.
Nós não fomos embora porque éramos incapazes de lidar com críticas. Fomos embora porque entendemos que amor não é um inventário de falhas. É parceria. É escuta. É crescimento conjunto. Quando isso se perde, ficar deixa de ser escolha e passa a ser violência.
Hoje, sabemos: partir também é um gesto de amor não pelo outro, mas por nós mesmas. Porque quem só enxerga defeitos não está interessado em relação, mas em controle. E nós não ficamos onde precisamos nos defender o tempo todo para existir.
Nós seguimos. Mais inteiras. Mais lúcidas. E em paz com a decisão de ter ido embora.
