Chamam de “prisão domiciliar humanitária”, e o adjetivo soa bonito, quase reconfortante. Mas a expressão pomposa esconde a seletividade. Há poucas semanas, o ex-presidente Jair Bolsonaro tentou fugir ao romper a tornozeleira eletrônica, um gesto que, para a imensa maioria dos presos brasileiros, seria suficiente para endurecer a pena, não para suavizá-la. Ainda assim, eis que recebe um benefício raramente concedido a quem ocupa as celas invisíveis do país, onde o humanitarismo costuma chegar tarde, quando chega.
Convém não perder de vista a gravidade do crime. Bolsonaro foi condenado por tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito. Não se trata de um crime qualquer, mas de um ataque direto às bases da democracia. Se tivesse sido bem-sucedido, não estaríamos discutindo benefícios penais, mas talvez contando mortos, restringindo liberdades e vivendo sob a sombra de um regime autoritário. O Brasil conhece esse roteiro, e sabe o preço que se paga quando ele se concretiza.
Quando figuras poderosas recebem tratamento diferenciado mesmo após demonstrarem desprezo pelas regras, reforça-se a percepção de que há dois sistemas de justiça: um para os de cima, outro para todos os demais. Isso corrói a confiança pública, o Brasil está cansado disso.
