Caminho pela praia dos cações, dia dois de janeiro, data com grande importância e de alguma forma momentos muito reflexivos para mim.
Dessa vez um momento em um momento especial, uma planta roxa na encosta das falésias chama a atenção da pessoa que caminha ao meu lado.
— Será que se eu roubar uma muda? Será que nasce?
— Não tenho certeza, cada planta tem sua forma, gosta de plantas?
— Sim, principalmente dessas, roxas.
Minha memória registra automaticamente essa informação.
Dias depois o registro me volta à memória.
— Você gosta de roxo? Pergunto.
— Sim.
Por alguma razão um passeio simples me levou à infância.
Eu odiava roxo, horror, cor do mal, feia e aos doze anos ganhei uma blusa roxa, roxa mesmo, aquele roxão e amei, eu só pensava nessa blusa, eu queria usá-la o tempo todo, descubro minha paixão por roxo.
Algo me incomodou.
— Por que não gosto de roxo? Eu me perguntava aos doze anos.
Demorei três anos para entender.
Novamente, uma peça de roupa.
Naquela época tudo era ganhando e não estou reclamando, minha avó materna, costureira e maravilhosa, deixava tudo bem arrumadinho e do nosso jeitinho, mas era uma peça marrom e eu odiei.
Descubro então minha aversão ao marrom. Eu tinha apenas quinze anos, mas passei a me perguntar. Sempre acreditei não gostar de roxo e nunca pensei no marrom.
Chego na casa da minha avó materna, as duas garrafas de café e o gostoso bolo na mesa. Corto um pedaço, pego um café forte, sento ao lado da minha vovó, e as conversas discorrem naturalmente.
Não sei como e nem a razão, de repente falamos de cores e eu pergunto:
— Por que a senhora não gosta de roxo?
— Quando eu era pequena, as pessoas morriam, ficavam na cama ou na mesa até o carpinteiro chegar, media o corpo e fazia o caixão do tamanho exato. O caixão era forrado de roxo. Não gosto de roxo.
Nesse momento compreendi, eu acreditei não gostar de roxo, pois diversas vezes ouvi:
— Não gosto de roxo, é coisa de morto.
Hoje, com mais de quarenta e sem os carinhos da minha vozinha, me questiono com frequência.
__ Isso sou eu ou é aquilo que me disseram? Sou assim ou a sociedade disse que é?
Todos os dias entendo a necessidade dessas perguntas e na maioria das vezes a estranheza das respostas. Ainda assim, gosto de roxo, e detesto marrom e isso serve para a vida, quando cruzo com aquilo que me é positivo, como o roxo, e sem sentido como o marrom.
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“Apaixonada pela vida em todas as suas formas! Mãe, avó, artesã do crochê e escritora por vocação. Encontro inspiração na natureza e tranquilidade nas trilhas da montanha. Palavras e linhas são minhas ferramentas para criar e compartilhar amor.”
Autora de três livros publicados, colunista e integrante de uma comunidade literária.
