No quintal onde o sol pinta listras de ouro no chão,
as crianças inventam regras que ninguém escreveu.
Uma folha seca vira barco,
um graveto vira espada,
e o vento — ah, o vento! — é cúmplice fiel,
levando risadas pra cima das nuvens como pipas sem linha.
Elas correm atrás de bolhas de sabão que dançam lentas,
redondas e frágeis como sonhos que ainda não acordaram.
Cada bolha carrega um castelo inteiro:
torres de arco-íris, pontes de espuma,
e dentro, um dragão que cospe bolhas em vez de fogo.
Quando estouram, não há tristeza —
só o grito de “outra! outra!”
porque o mundo recomeça a cada sopro.
No quarto escuro, sob lençóis que viram tendas,
lanternas de bolso viram estrelas caídas.
Ali mora o medo do escuro, mas ele é pequeno,
tem orelhas de coelho e pede pra brincar de esconde-esconde.
As crianças sussurram segredos pra bichos de pelúcia:
“Você já voou de verdade?”
E o urso responde com olhos de botão:
“Todo dia, quando você dorme e eu fico acordado.”
No asfalto quente da calçada, giz de cera vira mapa do tesouro.
Arco-íris tortos, monstros sorridentes,
casas com chaminés que soltam fumaça de algodão-doce.
Os pés descalços deixam pegadas coloridas,
e o desenho cresce até cobrir o mundo inteiro —
porque no reino infantil não há borda,
só continuação: “e depois? e depois?”
À noite, quando os adultos falam baixo sobre contas e amanhã,
as crianças ainda voam por dentro.
Sonham com dinossauros que dançam valsa,
com rios de chocolate que correm morro acima,
com amigos imaginários que contam piadas ruins
e riem primeiro pra incentivar.
E quando o sono chega devagar,
como um cobertor quente de avó,
elas fecham os olhos e levam o dia inteiro junto:
o cheiro de terra molhada depois da chuva,
o gosto de sorvete derretendo na mão,
o som de gargalhadas que ecoam no peito
mesmo quando o silêncio toma conta.
Porque o mundo infantil não acaba aos sete, aos dez, aos cinquenta.
Ele mora quieto no fundo do olhar,
esperando um balão solto, uma bolha no ar,
um giz esquecido na gaveta
pra explodir de novo em cores,
em correria, em “olha só o que eu inventei!”.
E enquanto houver uma criança —
dentro ou fora do corpo —
o reino continua:
sem fronteiras, sem relógio,
só com a certeza teimosa
de que tudo pode ser mágica
se a gente acreditar forte o suficiente.
