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Resgate silencioso da poetisa Gilka Machado

A história das letras brasileiras guarda silêncios que dizem muito sobre o país, e a retratada de hoje em O Lado B da Literatura é a prova viva desse fenômeno. Trata-se de Gilka Machado (1893–1980), a mulher que em 1933 foi eleita a “maior poeta do Brasil” pela revista O Malho, superando nomes como Cecília Meireles. Apesar do título e de uma técnica primorosa, Gilka passou décadas relegada a notas de rodapé, um apagamento que pesquisadores modernos atribuem a uma mistura de preconceito moral e racismo estrutural.

O primeiro choque causado por Gilka veio com sua estreia em 1915, com Cristais Partidos. Numa época em que se esperava das mulheres versos sobre o lar ou a devoção, ela escreveu sobre o corpo, o desejo e o prazer feminino. Essa audácia lhe rendeu o apelido pejorativo de “matrona imoral” por críticos conservadores que não conseguiam conceber uma mulher como sujeito de sua própria sexualidade.

Curiosamente, o talento de Gilka era tão evidente que muitos duvidavam que uma mulher fosse capaz de escrever tais versos. Ao vencer um concurso do jornal A Imprensa, ela teve sua autoria questionada por jornalistas que precisaram verificar pessoalmente se os poemas eram de fato dela. Superada a desconfiança, ela se tornou uma das poucas vozes femininas a transitar com maestria entre o Simbolismo e o Parnasianismo.

Além da poesia, Gilka foi uma militante feroz. Em 1910, ajudou a fundar o Partido Republicano Feminino, lutando pelo direito das mulheres ao voto décadas antes de ele ser institucionalizado. Sua escrita não era apenas erótica, mas profundamente política, denunciando a condição desfavorecida da mulher na sociedade brasileira do início do século XX.

Apesar do sucesso inicial, o esquecimento começou a se desenhar pela forma como a crítica literária, majoritariamente masculina, catalogava sua obra. Ao rotulá-la apenas como “poeta erótica”, muitos críticos ignoraram a profundidade mística e social de seus versos. Esse reducionismo serviu como uma forma de isolamento, mantendo-a fora dos grandes cânones literários ensinados nas escolas.

Fatores pessoais também contribuíram para seu afastamento dos holofotes. Após ficar viúva do poeta Rodolfo Machado, Gilka enfrentou severas dificuldades financeiras, chegando a trabalhar como faxineira e a administrar uma pensão para sobreviver. O esforço pela sobrevivência diária em uma família de artistas negros e pobres dificultou sua manutenção nos círculos sociais que validavam a fama literária da época.

Um dos momentos mais emblemáticos de sua vida ocorreu em 1977, quando o escritor Jorge Amado a convidou para se candidatar à Academia Brasileira de Letras. Em um gesto de dignidade e desapego, ela recusou a proposta, embora tenha aceitado o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra em 1979, um ano antes de falecer discretamente no Rio de Janeiro.

Hoje, a obra de Gilka Machado vive um renascimento necessário. Novas edições de suas Poesias Completas e estudos acadêmicos estão finalmente devolvendo a ela o status de vanguarda. Redescobri-la não é apenas um ato de justiça literária, mas uma forma de entender como a ousadia de uma mulher negra e pobre conseguiu romper, pelo menos no papel, as amarras de um Brasil que tentou calá-la.

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Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.

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