O Tribunal do Júri de Planaltina retomou, na manhã desta quinta-feira (16), o quarto dia de julgamento da maior chacina da história do Distrito Federal. A sessão foi marcada pelo interrogatório de Carlomam dos Santos Nogueira, um dos cinco réus acusados de envolvimento na execução de 10 pessoas da mesma família, incluindo três crianças.
Durante seu depoimento, Carlomam confessou ter atirado em Marcos Antônio Lopes de Oliveira, o patriarca da família, mas alegou que o disparo foi feito “sem querer”. Segundo o réu, a vítima já estava rendida no momento da abordagem, porém, um embate físico entre os dois teria provocado o que ele classificou como um disparo acidental.
O réu detalhou como foi atraído para o crime, relatando uma amizade antiga com outro acusado, Fabrício Canhedo. Carlomam afirmou que passava por dificuldades financeiras quando recebeu uma proposta para participar de uma “fita” que renderia R$ 500 mil. Inicialmente, ele alegou desconhecer que o plano envolveria assassinatos em série.
Ainda em seu relato, Carlomam apontou Gideon Batista de Menezes como o mentor intelectual e articulador do grupo. Ele afirmou ter sido apresentado a Gideon por intermédio de Fabrício, formando assim a base do grupo criminoso que, segundo o Ministério Público, agiu de forma coordenada e cruel ao longo de várias semanas.
O julgamento, que teve início na última segunda-feira (13), entra em sua fase decisiva após dois dias de depoimentos de testemunhas e o início dos interrogatórios dos acusados. Na quarta-feira (15), outros três réus — Gideon Menezes, Horácio Barbosa e Fabrício Canhedo — já haviam apresentado suas versões, com estratégias de defesa conflitantes.
Gideon Menezes, apontado como líder, negou as acusações e tentou se colocar no papel de vítima. Ele afirmou ao júri que teria sido mantido amarrado e coagido pelos demais a participar das ações. Já Horácio Barbosa optou pelo silêncio constitucional, enquanto sua defesa sustenta que o MP não comprovou a autoria direta das mortes.
Destoando dos demais, Fabrício Canhedo confessou sua participação e detalhou as condutas do grupo. Em um depoimento carregado de emoção, ele chorou e pediu perdão aos familiares presentes, justificando que aceitou participar do crime porque precisava de dinheiro para custear uma cirurgia para o filho.
A denúncia do Ministério Público descreve um roteiro de horror que começou em outubro de 2022. O plano “cruel e torpe” visava o patrimônio da família. No final de dezembro, o grupo rendeu Marcos Antônio, sua esposa Renata e a filha Gabriela, roubando R$ 49 mil e levando-os para um cativeiro em Planaltina, onde Marcos foi esquartejado.
A partir daí, os criminosos usaram os celulares das vítimas para atrair outros parentes, mantendo uma farsa digital. Entre 2 e 4 de janeiro de 2023, Cláudia Regina e sua filha Ana Beatriz foram sequestradas e levadas ao mesmo cativeiro, onde sofreram extorsões para a entrega de senhas bancárias e bens.
O crime atingiu seu ápice de violência em meados de janeiro. Thiago Gabriel, filho de Marcos, foi atraído e sequestrado. Na sequência, sua esposa, Elizamar Silva, foi convencida a ir ao encontro do marido com os três filhos do casal. Todos foram rendidos e levados para uma rodovia em Goiás, onde a mãe e as crianças de 6 e 7 anos foram estranguladas.
O Ministério Público aponta que os corpos de Elizamar e dos filhos foram incendiados dentro de um carro. No dia seguinte, Renata e Gabriela Belchior tiveram o mesmo destino trágico em uma estrada de Unaí (MG). Carlomam, que depôs hoje, teria acompanhado essas ações de execução e ocultação.
As últimas vítimas foram Cláudia, Ana Beatriz e Thiago. De acordo com a acusação, eles foram levados a uma cisterna próxima ao cativeiro, assassinados a facadas e jogados no buraco, que foi coberto com terra e cal sob ordens de Gideon para dificultar a localização dos corpos.
Após os assassinatos, o grupo ainda teria tentado destruir evidências no cativeiro, queimando objetos e alterando a cena do crime. A perícia técnica, no entanto, conseguiu reunir provas que sustentam a denúncia de homicídio qualificado, extorsão, roubo, sequestro e ocultação de cadáver.
Os réus enfrentam penas que, somadas, podem ultrapassar centenas de anos de prisão. O crime de homicídio qualificado, sozinho, prevê até 30 anos de reclusão por cada vítima. A sociedade brasiliense acompanha o desfecho do caso, que chocou o país pela frieza e pelo extermínio quase total de uma linhagem familiar.
Após o término da fala de Carlomam, o tribunal se prepara para ouvir o quinto e último réu, Carlos Henrique Alves da Silva. A expectativa é que, após os interrogatórios, os debates entre acusação e defesa definam o destino dos acusados em um dos vereditos mais aguardados do Judiciário local.
