Reunião de magos e magas em algum ponto da Grécia. Estavam presentes os supracitados e supracitadas, e também bruxos e bruxas, feiticeiros e feiticeiras, xamãs, todos reconhecidos por seu poder, por assegurarem a ligação entre o nível dos homens e o dos deuses. O anfitrião, um grego, dirigiu-se a seus pares:
– Saudações, irmãs e irmãos. Convoquei todos vocês aqui para unirmos forças em um projeto grandioso: o retorno dos deuses do Olimpo. É hora de o politeísmo retomar sua hegemonia! Unidos, traremos ao mundo uma segunda idade de ouro, graças à intervenção benfazeja das divindades. Por exemplo, Apolo, associado ao equilíbrio nas criações intelectuais e artísticas, favorecerá a dimensão exata em toda essa esfera; Dioniso, criador do teatro, estimulará a criação de comédias e tragédias inesquecíveis. E Zeus, arquétipo do governante justo, vai trazer uma longa era de paz ao mundo!
Calou-se e os mirou, esperando encontrar nos olhos de todos um entusiasmo similar ao seu – mas se deparou apenas com ceticismo. O silêncio prolongou-se. Afinal, um deles perguntou:
– Quais são os objetos mágicos que vão lastrear o retorno dos deuses?
O tridente de Poseidon e uma das sandálias aladas de Hermes, o mensageiro dos deuses. – Tratou de afastar a descrença dos demais. – É pouco, sei disso; mas tenho algo verdadeiramente sagrado, poderoso, que vai garantir a vinda dos olímpicos.
Afastando um pano que cobria um objeto sobre uma mesa, no centro da sala, mostrou-lhes uma grande pedra com baixos-relevos, no formato aproximado de um ovo, que pulsava.
– É o … – começaram a dizer todos, os olhos brilhando de emoção.
– O ônfalo, sim – cortou o grego, aquele momento era seu. – O ônfalo do templo de Apolo em Delfos, o umbigo do mundo, o centro cósmico, que assegura a ligação entre o mundo dos homens, o mundo dos mortos e o mundo dos deuses. – Fez um gesto que abrangia todos os presentes. – Com ele, e com os poderes sobrenaturais de todos nós, vamos trazer os deuses de volta!
E os deuses voltaram à Grécia, um tanto diferente da Hélade que haviam conhecido. Materializaram-se não como figuras arquetípicas, modelos de comportamento, e sim como seres de carne e ícor, o fluido divino que os tornava imortais. Chegaram como o diabo gosta, na ponta dos cascos, dispostos a tacar fogo no parquinho, a tirar um atraso de 2 mil anos.
Zeus, o deus dos deuses, voou para as praias e, lá de cima, viu lindas mortais praticamente nuas. Decidiu transformar-se em cisne para seduzi-las, mas não foi preciso: elas brigavam, arrancavam-se os cabelos, disputavam com belas unhas e lindos dentes a oportunidade de traçar aquele macho poderoso. Não era bem o que Zeus esperava, as moçoilas de seu tempo eram mais recatadas. Exasperado, exclamou:
– Porra, não há mais virgens pudicas na Hélade?
Havia, sim; a cada dia nasciam milhares. Mas depois dos 14 – 15 anos, quando os hormônios da adolescência ferviam, eram mais raras que dentes em galinhas. Desiludido, virou a banda:
– Ganimedes, moço bonito, vem com o titio, vem…
O copeiro dos deuses deu um suspiro. Pelo cheiro da brilhantina, teria nais uma vez de encarnar um jovenzinho tímido. Deu de ombros e parafraseou um trecho de uma canção que ouvira enquanto estava semiadormecido:
– … Zeus é quem quer… Zeus é quem manda… Eu sou apenas um efebo…
O irmão de Zeus, Poseidon, também correu para o litoral; era o senhor da tálassa, termo grego para o Mediterrâneo, estava em seus domínios. Viu centenas de barcos que velejavam, mas percebeu que nenhum deles havia feito as libações rituais para que ele os protegesse. Enfurecido, desencadeou uma enorme onda que devastou o litoral e afundou muitas embarcações.
Dioniso, por sua vez, correu para um de seus teatros. Em uma brincadeira de mau gosto das moiras, as três irmãs que controlam o destino de homens e deuses, era apresentada uma peça que zombava das divindades olímpicas. Cheio de fúria, materializou suas seguidoras, as mênades, sempre sedentas de sangue, e as lançou sobre os atores e a plateia. Poucos escaparam com vida.
Desse modo, os deuses foram descobrindo a nova Hélade, desiludindo-se e desiludindo os pobres magos, que os viam como arquétipos do Justo, do Belo e de outras abstrações nessa linha. Diga-se que a desilusão olímpica teve consequências imediatas mais graves. Um exemplo, ao ver seus templos transformados em atrações turísticas, sem nenhum sentimento de temor reverente para com seus titulares, Atena e Apolo dizimaram centenas de visitantes do Partenon e do templo de Delfos. Pior, todas as divindades encontraram suas fontes, regatos, clareiras, seus locais de poder em meio à natureza, poluídos ou simplesmente desaparecidos, cobertos por toneladas de concreto. Furiosos, destruíram shoppings, prédios governamentais, igrejas, tudo o que sobre eles se erguia. Não era uma nova idade de ouro, as trevas retornavam ao mundo.
Tudo isso levou os magos a, acabrunhados, se reunirem de novo em torno do ônfalo e somarem novamente seus poderes psíquicos, para mandarem os deuses olímpicos para o estado de torpor em que havia dois milênios se encontravam.
