Notibras

ROÇADOS DO FORTE

— Muito bom dia, Legislador,

que nessa assembleia está;

sabe dizer se é possível

algum pleito ganhar?

— Cargo aqui nunca falta

a quem sabe enganar;

o que fazia o Compadre

na sua terra de lá?

— Pois fui sempre coordenador,

coordenador de causas más;

não há espécie de patrimônios

que eu não possa depredar.

— Isso aqui de nada adianta,

não se pode depredar;

mas diga-me, pleiteante,

o que mais fazia por lá?

[…]

— Conheço todas as bossas

que aquele clã faz vingar;

o pistolão, a barganha,

a facada, os filhos, os bafafás.

— Esses babados o agro

já não quer financiar;

mas diga-me, Pleiteante,

o que mais fazia por lá?

[…]

— Deseja mesmo saber

o que eu fazia por lá?

Fazer temer quando havia o quê e, havendo ou não, prevaricar.

— Essa vida por aqui

é coisa familiar;

mas diga-me, Pleiteante,

sabe golpistas anistiar?

Sabe postar excrescências,

parlamentares “trans” ameaçar?

Sabe falar abobrinhas,

sabe mortos encomendar?

— Já queimei muitos defuntos, na lida é coisa vulgar; mas nunca fiz isso às pressas, o importante é acertar.

— Pois se o compadre soubesse fazer leis, privatizar, trabalhávamos a meias, que a freguesia bem dá.

— Agora se me permite minha vez de perguntar: como penhora favores,

como faz para pagar?

— Vou explicar rapidamente,

logo compreenderá:

por aqui só rico manda,

pobre é pra cancelar.

— E ainda se me permite

que volte a perguntar:

é aqui uma profissão

trabalho tão singular?

— É, sim, uma profissão,

e a melhor de quantas há:

sou de toda intenção

relator ou titular.

— E ainda se me permite

mais outra vez indagar:

é boa sua posição

no Congresso em que ora está?

— De um raio de muitas léguas

vem gente aqui pleitear;

fingindo que não é rude

privilégios vem caçar.

— E se pela última vez

me permite perguntar:

não existe outro atalho

para quem deseja ingressar?

— Como aqui mais forte manda,

só é possível trabalhar

nas legislações que fazem

Pro forte ofício ou bazar.

Imagine que outra gente

de profissão similar,

misóginos, baderneiros,

tutor de quartel pra acampar,

tramando contra a docente

decente que quer ensinar,

governante às avessas,

expulsa-a, se vem pra cá.

Só OS ROÇADOS DO FORTE

“compensam aqui cultivar,

e cultivá-los é fácil:

simples questão de plantar;

não se precisa de limpa,

de adubar nem de regar;

as estiagens e as pragas

fazem mais prosperar;

e dão lucro imediato;

nem é preciso esperar

pela colheita: recebe-se

na hora mesma de semear.”

……………………

Referências bibliográficas

Edna Domenica e Gilberto Motta no Café Literário Notibras sobre João Cabral de Melo Neto.

.https://www.notibras.com/site/morte-e-vida-severina-um-poema-sobre-a-miseria-brasileira/

.https://www.notibras.com/site/versos-esculpidos-na-pedra/

.https://www.notibras.com/site/a-fala-de-joaquim-em-os-tres-mal-amados-lapidada/

Edna Domenica é autora de “O Setênio” (Tão livros, 2024) e Rapsódia da Rua da Mooca (Tão livros, no prelo). Professora, dedica-se ao PRCDC – “Programa de Recuperação Cognitiva e Dessensibilização de Cromofobia”. Trata-se de um projeto de combate à fobia de vermelho, por meio de leituras dos autores: João Cabral de Melo Neto e outros.

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