O mar da Malásia não era azul. Era verde-escuro, denso como segredo antigo, e nele repousavam as memórias que o Império Britânico preferia afogar. Entre ilhas de nomes esquecidos pelos cartógrafos de Londres, navegava Sandokan — não como pirata, mas como ferida aberta no casco da História.
Diziam que fora príncipe. Diziam que herdara um trono de palmeiras e rios lentos, tomado à força por homens de fardas claras e palavras duras. O império não roubava apenas terras: roubava nomes, apagava genealogias, ensinava aos derrotados a se chamarem súditos. Sandokan recusou. Preferiu o exílio salgado à obediência doce.
Chamaram-no mercador, porque negociava com o vento. Chamaram-no pirata, porque recusava bandeiras que não fossem suas. Chamaram-no selvagem, porque não compreendiam que a civilização pode ser mais cruel que a selva. Para os seus, ele era apenas o Tigre — o que ataca em silêncio, o que não pede licença ao mapa.
Mompracem, sua ilha-fortaleza, não constava nos tratados. Era feita de pedra, pólvora e lenda. Um lugar onde o império não entrava sem pagar em sangue. Ali, o tempo obedecia ao ritmo das marés, e os homens aprendiam que a liberdade não se escreve em decretos, mas se conquista com risco e perda.
Ao seu lado estava Yanez, europeu sem império, homem que trocou a pátria pelo horizonte. Porque às vezes é preciso abandonar o centro do mundo para enxergar suas bordas. Juntos, riam do poder britânico, esse gigante de botas que acreditava governar o planeta com réguas e mapas, sem perceber que o mar não respeita linhas retas.
Sandokan não odiava os ingleses. O ódio exige proximidade demais. Ele os desprezava como se despreza uma maré falsa, que sobe com arrogância e recua deixando destroços. Combatia não por vingança, mas por memória — para provar que seu povo existira antes das bandeiras, antes dos tratados, antes das armas modernas que chamavam conquista de progresso.
E havia Mariana. A Pérola de Labuan. Branca como o sonho impossível de conciliação entre dois mundos que se recusavam a se entender. Amá-la era aceitar a contradição: desejar o rosto do império sem se render a ele. No amor, Sandokan conheceu sua única derrota verdadeira — porque nenhum tigre vence quando o coração se torna refém.
Quando seus navios surgiam no horizonte, os governadores coloniais tremiam mais do que admitiam. Não era o medo de um homem, mas o pavor do símbolo. Sandokan lembrava ao império que nem todos os povos se ajoelham, que alguns preferem virar lenda a virar colônia.
Dizem que desapareceu no mar. Os impérios sempre dizem isso dos que não conseguem derrotar. Mas nas aldeias costeiras, ainda hoje, pescadores juram ouvir um rugido distante quando o vento muda. Não é animal. É aviso.
Porque enquanto houver mapas feitos sem ouvir quem vive sobre eles, Sandokan continuará navegando — não como pirata, mas como a consciência indomável de um mundo que se recusou a ser domado.
