Após acordar preguiçosamente e tomar café, resolvi olhar pela janela do meu quarto. O dia hoje está nublado, com vento fresco e promessa de chuva. Uma verdadeira benção em dias do verão. Como de costume, gosto de olhar mais distante, para desfocar a retina de uma rotina onde só se fixa em telas e lugares próximos. Neste exercício, enxerguei o zelador de um dos prédios da rua de trás sentado no chão, consertando um tênis da Nike e logo após o calçando ao pé. Não há nada demais nesta cena, você pode pensar. Mas a mesma me remeteu à muitas questões referentes a um simples sapato.
Vou ao fato em si. O zelador, após consertar o tênis, o calçou e andou, parecendo estar satisfeito com o que para ele era novo. Ninguém vai fazer faxina em um prédio calçando um Nike “novo”, correto? Conhecendo o poder aquisitivo do zelador, imagino que alguém tenha dado a ele aquele tênis, por simplesmente não o querer mais. Ou ainda, ele pode ter encontrado em algum lugar na rua ou mesmo nos bazares da vida.
Você pode achar que estou menosprezando o homem. Não estou. Como ele, existem vários moradores do meu bairro que trabalham, mas nunca vão ter o prazer de comprar um Nike novo saindo da loja. A meu ver, o preço de um tênis desse não condiz com o real valor do produto. Eu mesma, adoro brechós e aceito de coração peças de segunda mão, por questões ambientais e financeiras mesmo. O mundo que vivemos não permite que todos tenham o prazer do consumo capitalista. Muitas vezes, vão apenas sobreviver à margem da sociedade, ficando realmente satisfeitos com aqueles objetos que outras pessoas não querem mais. Se por um lado o meio ambiente agradece, por outro, escancara-se a desigualdade latente da sociedade.
Conheço uma senhora que mora aqui perto e vive olhando as lixeiras em busca de roupas, brinquedos, sapatos e outros objetos que possam ser reaproveitados pela sua família.
Ela diz que leva os mesmos para uns parentes que moram lá pelo lado de Seropédica e vivem em condição de real pobreza, ficando extremamente felizes com o que ela leva. A mulher, mora na chamada “favelinha” aqui perto. Nordestina, a vida já lhe levou filhos e dentes. Mas continua a busca para ajudar aqueles que ainda são mais pobres que ela.
Outro dia a vi atrás de uma funcionária da escola local. Dizia que a menina havia jogado fora um tênis, mas que só tinha um pé e ela queria o outro, pois servia nela. E lá foi correndo atrás da funcionária em busca do outro pé do sapato que lhe coubera.
Eu não consigo mais usar sapatos que me apertem. Por toda minha vida eu calcei 38. Meu pé magro, baixo e sem cava sempre teve dificuldade para assentar em sandálias, pois sobrava espaço entre as tiras. Nunca tinha tido problemas com sapatos fechados. Mas já há alguns anos, eles começaram a apertar meus dedinhos. E você sabe que dedinho do pé incomoda quando apertado. Começa uma queimação que mal te permite a caminhada.
Na grande maioria das vezes me desloco para o trabalho a pé. E ando significativamente até metrô ou ponto de ônibus. Logo, sapato apertado ou que machuca meu pé chato é um real problema. O calcanhar também pode doer alcançando logo meu ciático. Foi neste ano que minha ficha caiu e percebi que não me cabia mais o 38, iniciando assim a troca paulatina por sapatos 39, pelo menos os fechados, para que não me apertem ou causem desconforto. Meu receio é ficarem largos, caindo ou mesmo saindo em uma caminhada mais apressada. Mas prefiro a leveza ao aperto.
Não sei se as formas dos sapatos mudaram ou se foi meu pé que cresceu. Por falar em pé que cresce, lembrei da teoria do meu professor e orientador da faculdade de História que usava a metáfora do “pé que crescia dentro do sapato” para explicar períodos de mudanças conjunturais econômicas e políticas no Brasil Colônia. Eu uso a mesma metáfora pra falar da crise do Império Romano – crise de crescimento – nas minhas aulas de História do Direito.
Levando esta metáfora para a vida e observando a rotatividade de sapatos que já não servem mais para uns e servem muito para os outros, vejo que meu período interno também é de mudanças e transformações. Estou chegando aos 40 e sentindo o que vale e não vale mais a pena, abandonando experiências que não resolvem mais meus problemas e situações que me apertam os dedinhos dos pés. É tempo de renovação, de consertos de sapatos ou mesmo de sapatos novos.
A fase dos 40 para o ser humano é uma fase nova. Mulheres iniciam a “perimenopausa”, uma etapa antes da menopausa propriamente dita, mas que já inicia mudanças biológicas, hormonais e físicas. Para além deste fato, a vida me proporcionou experiências nos últimos anos que não eram das mais agradáveis, mas que, de todo modo, me permitiram o crescimento interno: quem antes calçava 38 e agora sente a necessidade de um 39, tem sentido também a necessidade de transformações internas, espirituais até. Uma crença plena de que Deus cuidará das novas passadas com sapatos mais confortáveis para quem já andou com eles apertados, tem reinado em mim. Um fortalecimento da deusa feminina que habita em cada uma de nós (sempre me lembro de Ísis, ou Maat, deusa Egípcia), tão sofrida no mundo patriarcal, mas tão resiliente.
Quem diria que uma simples cena de alguém calçando um tênis “novo” me faria em minutos chegar até aqui?
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Rachel Gomes de Lima (@rachel.lima.prof), escritora, é doutora em História e professora universitária carioca.
