Notibras

Saudade da liberdade de escolhas

“Viver tem dessas coisas: de vez em quando se fica a zero. E tudo isso é por enquanto. Enquanto se vive.” (*)

Hoje vi um vídeo narrando uma ação da Extrema Direita contra o enredo de escola de samba sobre a mãe do atual presidente do Brasil. Foi assim: sem mais nem menos… Ou já era de se supor?

Trabalhei na escrita do que será meu próximo livro o dia inteiro, são dez para as dezoito horas. O telefone toca só pra enviar propaganda. Estou sozinha. Sozinha no mundo e no espaço. E quando eu telefono, o telefone chama e ninguém atende.

A questão é saber aguentar. Pois a coisa é assim mesmo. Às vezes não se tem nada a fazer . E então?

Lembrei do texto que escrevi “Como matar o tédio” no qual o narrador mata um cachorro (com recursos de crueldade) e crê ter praticado um ato comprovante do ingresso ao corajoso mundo adulto. Tentei afastar a lembrança sobre o fato, já que está sendo explorado, monetariamente, por várias vertentes.

Eu, pelo contrário, ao escrever em repúdio a tal ato, não ganhei em moeda. Mas se a ética nos fez assim (a nós escritoras), que assim sigamos: de mãos abanando… E às vezes sem assunto.

O que fazer? Nada? Ou ficar sozinha o dia inteiro.

Já sei o que vou fazer: vou comer. Depois eu volto. Fui à cozinha. O microondas é meu companheiro de refeições depois que fiquei assim.

Ah, já sei o que vou fazer: vou mudar de roupa. Depois eu como, e depois volto. Até já.

Já comi. Estava ótimo.

São dezoito horas e trinta minutos. Que tal ler João Cabral de Melo Neto? Ou Ariano Suassuna? Quero alegria! O contrário dela pode matar aos poucos. Escolho o segundo autor.

Durante a leitura várias interrupções para conferir que horas são. Para quê?

Quando a gente começa a questionar as finalidades então as coisas complicam. E eu estou fazendo isso… Apenas “por enquanto”. São vinte para as dezenove horas. E para que é que são vinte para as dezenove horas?

Estou com saudade. Saudade da liberdade de escolhas antes das Big Techs. Essa saudade dói muito!

Mas a gente lê as mensagens via celular ou redes e melhora logo. Faltam cinco minutos para as dezenove horas. “Se me descuido, morro. É muito fácil. É uma questão do relógio parar. Faltam três minutos para as sete. Ligo ou não ligo a televisão? Mas é que é tão chato ver televisão sozinha.

Mas finalmente resolvi e vou ligar a televisão. A gente morre às vezes.” (*)

……………….

* Clarice Lispector
Edna Domenica é autora de “O Setênio” (Tão livros, 2024) e co-autora de “Rapsódia da Rua da Mooca” (Tão livros, no prelo). Este texto é uma releitura de “Por Enquanto”, do livro “A Via Crúcis do Corpo”, de Clarice Lispector, publicado pela primeira vez em 1974.

Sair da versão mobile