Tenho poucos contos sobre Carnaval, e um deles, Agonia (já publicado pelo Notibras), como o nome indica, é triste pra dedéu. Agora, vai um com o astral bem mais pra cima.
O caso me foi contado por André, um amigo de faculdade. Ele jurou ser verdadeiro, mas o importante é que deu samba, ou melhor, deu conto.
André, aluno da faculdade de Economia da UFF, estava com 22 anos. Filho de fazendeiro, criado à base de muita proteína, era alto e forte, mais roliço que gordo, de cabelos louros e olhos azuis; parecia um anjinho barroco que tivesse caído numa tina de fermento.
Chegou o carnaval, e ele estava numa dureza de dar pena. O pai, latifundiário mão de vaca, regulava a mesada do filho, restringindo-a ao que fosse absolutamente prioritário. A seus olhos, não aos de André. E o coroa não estava disposto a financiar cinco tardes e quatro noites de esbórnia para o rebento.
Sem grana para comparecer a bares da moda, e muito menos para viajar, o rapaz decidiu encarar um bloquinho. Afinal era gratuito e, se os deuses o favorecessem, conseguiria descolar uma parceira de folguedos. E de cama.
O bloco em que André se imiscuiu era talvez o mais chinfrim do Rio de Janeiro. Trio elétrico, nem pensar; a música ficava por conta de uma bandinha, uma charanga seria um termo mais preciso. Mulheres estavam em franca minoria, e mulheres jovens, dispostas a traçar quem viesse e desse, eram mais raras que dentes numa galinha. “Não tem tu, vai tu mesmo”, pensou ele. E sempre havia a possibilidade de cruzar com um bloco mais incrementado e aderir sem armas e sem bagagens a ele.
O bloco saiu, os machos pulando e suando; parecia uma torcida organizada num estádio. Uma mulher sorriu pra ele; os poucos dentes que haviam sobrevivido, estavam podres. André, moço educado, esboçou um sorriso de resposta e se afastou rapidinho.
Lá pelas tantas, percebeu que um sujeito baixinho e franzino não se afastava de sua retaguarda. Ele já havia encostado em seu traseiro umas quatro vezes e, pelo brilho dos olhos (André olhou para trás e para baixo), parecia disposto a encoxar muito mais. Pensou em se afastar ou dar-lhe um tranco, tanto fazia, mas antes que pudesse reagir, o carinha passou-lhe a mão na bunda e disse, com voz que se pretendia sedutora:
– Lourinho, tu és gostoso!
André explodiu.
– Quer levar uma porrada, filho de uma égua?
O predador percebeu o tamanho do problema em que se envolvera – um problema de 1,80 m, com a força de alguém criado a churrasco –, afastou-se do traseiro da vítima e balbuciou, com forte sotaque nordestino:
– Des… desculpe! Pen… pensei que, bonito desse jeito, estivesses a fim de uma brincadeirinha – e desabafou:
– Tô num atraso arretado, faz um ano que não sei o que é mulher… Tô desempregado, sem grana pra pagar nem mesmo um rabo de galo pra moça, e muito menos pra levá-la a um hotel… e és mesmo bonito e gostoso!
– Então foi isso – disse André aos amigos. – No carnaval passado.
– Só isso? – indignou-se um deles. – Conta o final! Cê deu uma porrada nele?
Foi minha vez de entrar em campo.
– Olha, André, das três, uma, e não precisa nos dizer qual foi. Você deu uma porrada nele. Ou sorriu pro carinha e mandou ele tentar a sorte com uma mulher, pelo que você contou, a baranga sem dentes encarava qualquer parada. Ou teve pena do sujeito e topou o rola-rola, afinal, não existe pecado ao sul do Equador, e muito menos no Carnaval.
André deu um sorriso enigmático, monalisesco, e foi embora em silêncio, sem se despedir.
