No bar da esquina, entre um copo americano suado e um rádio chiando mais do que a defesa do Bahia em dia de clássico, Seu Zé do Pandeiro decretou:
— Rapaz, vou lhe dizer uma coisa com toda a fé do mundo: se macumba resolvesse jogo de futebol, todo Ba-Vi acabava empatado.
Houve um silêncio respeitoso. Não desses de velório, mas daquele tipo que antecede a gargalhada coletiva. Até o garçom, conhecido como Messi do Tororó, parou de enxugar copo.
— Como é que é, Zé?, perguntou Naldo, torcedor do Vitória desde que o Barradão ainda era promessa e sofrimento.
Seu Zé ajeitou o chapéu, pigarreou como quem vai puxar um ponto — mas puxou foi uma teoria.
— Pense comigo. Bahia e Vitória jogam, né? Um perde, o outro ganha. Aí começa a romaria. Um vai no terreiro de Mãe Rita, outro vai acender vela pra Santo Antônio, outro passa no despacho da esquina, outro toma banho de sal grosso com folha de arruda e pensamento positivo.
— E tem ainda o que não lava a camisa há três rodadas, completou alguém no fundo.
— Exatamente!, vibrou Zé. “Um pede vitória, outro pede derrota do rival. Os orixás, santos, anjos e entidades ficam tudo olhando e dizendo: “Oxente, decidam-se!”
Naldo cruzou os braços.
— Então você tá dizendo que ninguém ajuda ninguém?
— Ajuda, sim, respondeu Zé, sério. “Ajuda a manter o suspense. Porque fé não é VAR, meu filho. Fé é mistério. E clássico baiano é entidade própria.
O rádio anunciou o gol do empate aos 47 do segundo tempo. O bar explodiu.
— Tá vendo aí?, gritou Zé. “Cada um pediu de um jeito, o universo fez o que pôde: empate suado, sofrido e discutido no botequim por três dias.”
Messi do Tororó filosofou:
— No fundo, o problema não é a macumba.
— Nem a fé, completou Zé.
— É o meio-campo.
Todos concordaram. Porque no futebol baiano, como na vida, tem coisa que nem santo, nem orixá, nem reza braba resolve. Só treino. E olhe lá.
E enquanto o bar fechava, alguém ainda arriscou:
— No próximo jogo vou pedir só pra não passar vergonha.
Seu Zé sorriu:
— Aí já é milagre grande demais, meu irmão.
