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Sedna, as lendas e os mitos dos esquimós

Nas regiões mais frias do planeta, onde o branco do gelo parece engolir o horizonte e o silêncio soa mais alto que palavras, os esquimós — conhecidos hoje como Inuítes — aprenderam a explicar o mundo por meio de mitos. Para eles, o universo não é hostil: é vivo, atento e profundamente espiritual.

As lendas inuítes não servem apenas para contar histórias. Elas organizam a vida, explicam fenômenos naturais, ensinam respeito à caça, ao mar e aos espíritos invisíveis que habitam cada fenda do gelo.

Entre todos os mitos, nenhum é tão poderoso quanto o de Sedna, a deusa do oceano. Segundo a tradição, Sedna foi uma jovem lançada ao mar pelo próprio pai. Ao tentar se agarrar ao barco, teve os dedos cortados, que se transformaram em focas, morsas e baleias.

Sedna passou a viver no fundo do oceano, governando os animais marinhos. Quando os humanos desrespeitam a natureza ou caçam além do necessário, ela se enfurece e retém os animais, causando fome. Cabe então ao xamã descer espiritualmente até Sedna, pentear seus cabelos — já que ela não tem mais dedos — e pedir perdão em nome da comunidade.

É um mito sobre culpa, equilíbrio e dependência absoluta da natureza.

Em muitas histórias inuítes, o Corvo é um personagem central. Astuto, brincalhão e às vezes cruel, ele é o responsável por trazer a luz ao mundo, libertar o sol ou ensinar os humanos a sobreviver.

O Corvo representa a inteligência que desafia o caos. Não é um herói puro, mas um ser ambíguo — como a própria vida no Ártico, onde astúcia e erro caminham lado a lado.

Para os inuítes, nada é inanimado. O vento tem vontade própria, o gelo escuta, os animais possuem alma. A aurora boreal, por exemplo, é vista em algumas lendas como o jogo de espíritos ancestrais no céu; em outras, como sinais de advertência para quem assobia à noite.

Há também espíritos perigosos, como o Ijiraq, capaz de mudar de forma e confundir caçadores, e o Tornit, gigantes que viveriam em regiões remotas, lembrando que o mundo ainda guarda mistérios inalcançáveis.

Essas narrativas não nasceram da fantasia gratuita, mas da necessidade. Em um ambiente extremo, os mitos funcionam como códigos éticos: ensinam quando caçar, como respeitar os animais abatidos, por que dividir alimento e como manter o equilíbrio entre humanos e forças invisíveis.

Mais do que lendas, são mapas espirituais para atravessar o gelo sem perder a alma.

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