“Na Sexta Sagrada eu fui / Minhoca, vara e puçá / Na beira do grande rio / Logo fui me acocorar / Sexta- feira é dia santo / É hora de refletir / Guardar o luto do Cristo / Sem nada em troca pedir”
(“Sexta da Paixão”, Mário Motta/MOTINHA)
O pai contava esse “causo” e jurava ser assim.
Era Sexta-feira Santa e ele fugiu pelo carreador da fazendinha para pescar no rio das pedras.
No tempo de meninice do pai, vilazinha lá do interior do Vale do Paraíba, SP, a Sexta-feira da Paixão era mesmo sagrada. A pequena rádio tocava música sacra o dia todo. As avós cobriam os espelhos da casa grande com lençóis; proibido comer carne, tocar viola, sanfona… cantar então, nem pensar!
Mas o pai era menino danado e, embora amasse o tal do Cristo, decidiu aproveitar o feriado e escapar para a beira do rio para o encontro com os mandis e os bagres e as traíras à espera do seu anzol com minhoca.
O pai contava o ocorrido e se “arrupiava” de pelo em pé. Do som medonho naquela tarde de Sol lindo e céu azul. Sem mais nem menos o dia ficou noite, o tempo virou e vieram trovões e chuva pronta para desabar.
O som estranho aumentava e o medo também:
” Ratatatá… Ratatatá… Chi!!!”
Era um som tão medonho que lhe dava calafrio. No dia sagrado as pragas já estavam de sobreaviso.
“Ratatatá… Ratatatatá… Chi!!!”
O pai recolheu as varas e carpiu o chão do estradão. O corpo gelado, coração disparado e o arrependimento apertando o peito.
“Perdão, meu Jesus Cristinho, pela minha incorreção. Era dia de resguardo e zombei da sua paixão. Deixa eu vortá pra casa, prós fininho e a patroa. Prometo nos outros ano deixar de ser tão à toa”
Falando essas palavras como se rezasse, o pai nunca olhou pra trás temendo grande castigo. Levou com ele pra vida toda aquele mistério de pavor no olho; na alma o arrependimento e nos ouvidos o “som medonho do Demonho… o Coisa Ruim”.
“Ratatatá…Ratatatá…Chi!!!!”
Pois veja só o fiel dos fatos. Na fuga destrambelhada o pai nem notou; na curva abaixo no rio um pau de árvore enroscou. Em cima um pica-pau batia o bico e furava. O som soava medonho, como se fosse de metralha.
E quando o bico do pássaro de tanta bater esquentava em brasa, pra aliviar as pancadas o bichinho na água do rio ele esfriava:
“CHI!!!!”
Depois de tantas andanças, não sei se é fato ou invenção. Mas sei que nesse mundo veio sem porteira, eu tive um pai contador. Contador de grandes
Causos de ilusão.
E assim foi por toda vida e hoje deve estar lá ao lado do Jesus Cristinho a trovar. Falou e histórias contou, da vida que Deus mandou e eu jamais esqueci das coisas que o pai falou.
Era Sexta-feira Santa, Paixão do Nosso Senô.
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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e caipira de causos, viola e sonhos desta breve estrada da vida. Vive na Guarda do Embaú, pequena vila de pescadores no litoral de SC.
