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Sincretismo

A tempestade abateu-se sobre a foz do Amazonas. Embarcações maiores sofreram, as menores foram arrastadas para o fundo pelas vagas furiosas, as de tamanho médio lutaram para escapar. Numa delas, marinheiros de torso nu, suas peles brilhantes de suor, chuva e espuma, tentavam manejar as velas, em meio aos raios que abatiam as grandes árvores nas margens e atingiam os mastros. Enquanto estendiam os panos em farrapos, dilacerados pelo vento furioso, pediam proteção a santos e entidades, a Nossa Senhora dos Navegantes e às deusas das águas, para que não os levassem para junto de si, para que os deixassem ficar por mais tempo neste mundo.

Não sei se as preces deles foram ouvidas no céu. No fundo das águas, porém…

– Rápido, meus botinhos! Cheguem antes dos machos daquela perua! Salvem os que puderem e tragam os outros pra mim!

– Rápido, meus amados! Cheguem antes dos peixes daquela perua! Salvem os que puderem e tragam os outros pra mim!

A primeira frase foi proferida pela Iara, a senhora das águas doces dos rios, em especial os da Região Norte; a segunda, por Iemanjá, rainha do mar, orixá do candomblé. Eram testemunho de um conflito de jurisdição de proporções cada vez mais graves.

À primeira vista, não havia problema: Iara ficava com as vítimas dos naufrágios em águas doces e Iemanjá, com os afogados no mar. Mas e nas áreas de brejos e pântanos, de águas salobras? Seria necessário levar um medidor de salinidade, para ver qual divindade deveria ficar com as vítimas fatais de naufrágios? E na desembocadura do Amazonas, cujas águas doces penetram muitos quilômetros mar adentro? Os conflitos se multiplicavam, davam origem a brigas entre botos em forma humana e os súditos de Iemanjá. E geravam também observações maldosas proferidas pelas duas rivais.

– Ela nem é brasileira! – protestou Iemanjá. – O mito da Iara é de origem europeia, foi trazido pelos portugueses, e o rabo de peixe faz parte da representação das sereias!

– Rainha do mar o cacete! – gritava raivosa a Mãe d’água (outra designação da Iara). – Iemanjá era uma divindade do rio Ewe, da Nigéria. Sua saudação, Odô Iyá, significa “Mãe de rio”. Ou seja, era uma divindadezinha de águas doces, devia ser minha vassala! Mas não, a perua assumiu o título de rainha do mar e…

– Assumiu não – contrapôs um boto meio intelectualizado. – Foram os brasileiros que fizeram dela a rainha das águas salgadas. Os mesmos que vos atribuíram o domínio das águas doces.

Iara ficou em silêncio, sem argumentos, e se afastou.

Diante do aumento dos conflitos, Iemanjá e Iara consultaram seus conselheiros mais confiáveis. As orientações foram as mesmas: partam para o sincretismo.

– Que merda é essa? – perguntaram, exasperadas, as duas.

– O sincretismo ocorre quando elementos culturais se mesclam, gerando um fenômeno cultural novo – explicou o boto intelectualizado. – No vosso caso, lendas indígenas se mesclaram ao mito das sereias, de origem europeia.

A milhares de quilômetros de distância, no fundo do mar, um conselheiro forneceu uma explicação semelhante a Iemanjá.

– Então como vou lidar com aquela perua? – insistiram Iara e Iemanjá.

– Sincretizem-se! – responderam os conselheiros.

– Como???

– Iemanjá e Iara são entidades femininas atraentes, vão descobrir por si mesmas o que fazer – e deram um risinho sacana.

E foi assim que Iara e Iemanjá se encontraram no litoral paraense, bem no ponto em que as águas do grande rio cessam de avançar oceano adentro. Olharam-se – e gostaram do que viram. Duas mulheres bonitas e gostosas, na força da idade e na ponta dos cascos. Duas entidades poderosas, prontas para o que der e vier. E, em especial, para quem vier e der.

Iara e Iemanjá sincretizaram a noite inteira, e a festinha prosseguiu nos dias seguintes. Os botos assumiram forma de homem e deram um trato na rainha das águas salgadas que a fez delirar (ela jurou para si mesma nunca mais chamá-los de peixes); a mãe d’água recebeu o mesmo tratamento dos cortesãos da rainha do mar (que nunca mais pensaria neles como “os machos daquela perua”, agora eram machos dela também).

E os conflitos desapareceram. Súditos de Iemanjá e da Iara passaram a atuar juntos no salvamento dos náufragos na foz dos rios e em áreas pantanosas. Os afogados são conduzidos alternadamente para um dos dois reinos, o do fundo do mar e o do leito dos rios.

E as sincretizadas continuam, cada vez mais deliciosas. Quando quer saborear um prato amazônico, Iemanjá manda aviso de que estará, na noite tal, no limite das águas doces do rio-mar. As duas rainhas se encontram e deitam e rolam. Às vezes convidam Oxum, a orixá das águas doces, para uma festinha a três. É a festa do caqui!

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