Notibras

Sob a negra sombra de The Blair Witch Project

Ele sabia que não devia. Não era ignorância. Não era desafio juvenil, desses que nascem da vontade de rir do medo para parecer maior do que ele. Era, ao contrário, uma consciência plena — um reconhecimento quase religioso de que certos lugares são portais e não paisagens. Mesmo assim, foi.

A estrada até Burkittsville parecia comum demais para guardar qualquer entrada para o inexplicável. Postes, cercas, caixas de correio, o latido distante de um cão que jamais aparecia. O mundo cotidiano montava guarda, como se quisesse tranquilizar o visitante: não há nada aqui além do que você trouxe.

E talvez essa fosse a primeira armadilha. Ele trouxe curiosidade. Trouxe ceticismo. Trouxe a secreta esperança de voltar com uma história que o tornasse interessante nas mesas de bar.

No porta-luvas, um gravador. No bolso, um celular. No fundo da mente, a superstição que fingia não possuir.

Quando o asfalto terminou, começou o território daquilo que não pede licença para existir. A mata se fechava em camadas, como cortinas sendo puxadas uma após a outra. Cada passo produzia o ruído de um intruso chegando atrasado a uma cerimônia antiquíssima.

Havia marcas nas árvores. Não recentes, não antigas — permanentes. Como se tivessem sido feitas fora do tempo, por mãos que trabalham na matéria errada da realidade.

Ele tentou lembrar o nome que os moradores evitavam pronunciar, a mulher expulsa, acusada, transformada em lenda. Elly Kedward veio à mente como um pensamento que não lhe pertencia. Não era recordação; era convocação.

O vento começou sem aviso. Nenhuma folha se movia, mas o som estava ali — um sopro correndo rente ao ouvido, íntimo demais para ser meteorologia. Ele ligou o gravador. Queria provas. Queria capturar o impossível como quem fecha um animal raro numa caixa de vidro.

O aparelho respondeu com estática. Foi quando percebeu: não era ele que registrava a floresta. Era a floresta que registrava ele.

Cada medo antigo que escondera, cada culpa varrida para debaixo da biografia, cada mentira pequena usada para sobreviver — tudo se levantava como vapor. A mata respirava aquilo com atenção de colecionador.

A noite caiu com a rapidez de uma sentença. Entre os troncos, vultos que podiam ser sombras ou lembranças. O chão já não obedecia à lógica da ida; todo caminho parecia retorno, mas retorno para onde nunca estivera. Ele gritou, primeiro por prudência, depois por desespero, por fim por hábito.

A resposta veio em forma de estalo. Um galho partindo. Depois outro. Depois muitos, como aplausos dados por mãos invisíveis.

Ele quis correr, mas percebeu que fugir é um verbo que precisa de futuro. E o futuro, ali, tinha sido cancelado. Restava apenas a permanência do instante, dilatado, observador, paciente. Então entendeu o erro. A floresta não punia a invasão. Punia a intenção de sair igual.

Quando caiu de joelhos, não pediu salvação. Pediu esquecimento. Que o apagassem da memória do lugar, que o deixassem regressar ao mundo onde as coisas cabem em fotografias e explicações.

O vento, misericordioso como uma sentença antiga, aproximou-se mais uma vez. E soprou.

Na manhã seguinte, a estrada continuava onde sempre estivera. Os postes, as cercas, a caixa de correio. Um morador recolheu o jornal, comentou sobre o frio e seguiu a vida com a serenidade dos que aprenderam a não perguntar demais.

Na orla da mata, algo novo pendia de um galho. Não era exatamente um aviso. Nem exatamente um troféu. Era uma memória recém-colhida, balançando devagar. A floresta, afinal, continua precisando de testemunhas.

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