Comecemos pela ternura das mãos
Pelos detalhes dos dedos e unhas
Pelos girassóis dos teus cílios e cabelos
Contemplemos todas as lutas decisivas que perdeste
E os rios que então se abriram para novos deltas
E a boca travada pela sede dos tempos
E o susto da queda súbita ou o equilíbrio sobre o fio
Pedra no vitral estilhaçado
Consideremos também o teu caminho
E para ele haveremos que achar metáforas
Estrelas em céu de vagalumes
Por fim busquemos no infinito da memória
A chave para o texto ainda não decifrado
Enquanto isto cultivarei meu silêncio
E a ninguém direi dos pássaros e peixes que moram
Em tua tatuagem escondida no colo de teu céu
Na sala grande os retratos dormem
E os nomes que ninguém mais chamará
Insistem em vagar pela casa vazia
Na alma misteriosa voz que canta e habita
A chama repleta de luz com cheiro de alecrim
Talvez nada me contemple e nunca me complete
Por isso canto os dias lentos
Queria dizer-te dos pequenos encontros
E dos gestos anônimos de mais uma manhã
No instante em que na cozinha
O cheiro da cebola e do alho adere às mãos e à pele
Percutindo ao longe sinfonias delicadas
Solo suave e infinito
De um solitário clarinete
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Gilberto Motta é escritor. Vive na Guarda do Embaú, vilarejo do litoral de SC.
