Notibras

Sua história é você

Durante um certo período da minha vida, todos diziam:

— Ah, mas o primeiro a gente nunca esquece.

Acho que isso aconteceu no final do meu casamento; faziam referência ao primeiro beijo, ao primeiro amor e a outras coisas que, hoje imagino, estavam todas ligadas a um homem. Por muito tempo, achei essa ideia idiota. Sei que algumas coisas marcam, mas não essas — a menos que tenham tido real importância, e sabemos que, na maioria das vezes, não têm.

Mas hoje, por alguma razão desconhecida, minha caixinha de lembranças se abriu e me recordei de duas coisas que, sim, foram as primeiras e permanecem inesquecíveis. Não pela peça em si, mas pela história por trás dela.

A primeira recordação foi o meu primeiro sutiã… ou melhor dizendo, os meus primeiros. Minha avó materna era muito atenta às mulheres da família. Como uma verdadeira matriarca, cuidava de todos e, percebendo as mudanças no meu corpo, chamou-me ao seu quarto. Faltava um mês para eu completar doze anos. Com seu jeitinho carinhoso, ela abriu uma sacola comum de uma loja simples e de lá retirou três conjuntos de calcinha e sutiã “menina-moça”: dois amarelos e um rosa. Guardei na memória o carinho e o cuidado; não a peça, mas o amor que ela representava.

No final do ano seguinte, já morando em outra cidade, a escola marcou um passeio: uma ida à praia de Piúma. Para meus colegas, era algo normal; cresceram a apenas 40 quilômetros do mar e iam sempre que podiam. Para mim, era uma novidade absoluta. Algumas vezes, minha avó paterna havia me confidenciado o desejo imenso de conhecer o oceano.

Sem dinheiro, pedi um biquíni emprestado. Lembro-me de me vestir sentindo vergonha de tirar a roupa diante de toda a turma, mas, ao parar diante do mar, o encanto levou de mim qualquer receio. Por algum tempo, esqueci até mesmo das conversas com minha avó. Anos depois, minha memória ainda guarda aquele biquíni branco de bolinhas vermelhas emprestado e a conversa que tive com ela no meu retorno.

Quando me pergunto o que quero e quem sou, sempre penso no que é importante de verdade: o material ou o sentimental. Não sou uma pessoa materialista e hoje observo, com tristeza, as pessoas perdendo a humanidade. Já não sabemos mais elogiar, cuidar ou dizer que amamos. Enquanto isso, valorizamos excessivamente o que é tangível e nos sentimos impotentes diante de uma realidade que nos exige, cada vez mais, dureza, poder e excesso.

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Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

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