É um conto real, escrito na época dos mil réis. Adaptado para os dias atuais, com a devida correção monetária, ganha muitos zeros à direita. No começo, lembraria um visionário, parecia só neblina sobre a água. Mas quem conhece o Cerrado sabe que a névoa é o último aviso antes do pé afundar. O caixote, que se supunha de concreto, mostrou-se ser mero papelão. E abarrotado de dinheiro, criou uma caixinha como apêndice.
Do lado de fora, o mercado, que adora se imaginar calçado de sapatos italianos, caminha sempre distraído sobre a lama como se fosse mármore. E bastou um ruído aqui, um papel que escapou dali, um sussurro acolá, para que o terreno cedesse. E relatórios deixaram gavetas reservadas para se transformarem em ponte para acessar comunicadores supostamente promíscuos.
À beira do atoleiro, os Tunicos passaram a observar e a manipular a cena com a serenidade de quem já escolheu onde não se pisa. Tonho de um lado, Tonho do outro. Compadres de prenome, parceiros de conveniência, especialistas na arte de vazar o que interessa e represar o que compromete. Trabalham como quem marca gol contra com a naturalidade de um treino. Depois se desculpam com o goleiro, mas comemoram com a arquibancada adversária.
Enquanto isso, o flamenguista, verdadeiro técnico do time, alterna cores no rosto. Rubro de raiva, negro de rancor. Olha para o campo e vê que a bola não obedece ao esquema tático. Sempre que tenta organizar a defesa, surge um passe açucarado vindo de onde menos se espera e cai direto no pé do problema. E anuncia-se a proposta de uma nova parceria a nível empresarial.
Um dos Tunicos carrega no currículo a frustração de ter sido quase comandante de banco. Em 2020, aquecia à beira do gramado, soprando nas mãos, sonhando com a braçadeira de titular. Era fruto de semente ruim, cochichavam os agrônomos da política e do mercado financeiro. Foi então que o lavrador de boas safras, homem de foice afiada e paciência bíblica, ouviu o técnico e cortou o caule torto antes que a sombra contaminasse o pomar.
O erro — e em contos inspirados na derrocada sempre há um —, foi esquecer as raízes.
Raiz tem teimosia de herança com aroma de vingança. Trabalha no silêncio, longe da fotografia oficial, e quando o entorno percebe, já há um broto rasgando o cimento. Voltou assim o Tunico, com tronco mais retorcido, casca mais grossa, especialista em sobreviver a machadadas que deveriam ter sido definitivas.
Nos galhos dessa árvore improvável costuma pousar um falcão-fêmea. Elegante, olhar clínico, fome seletiva. Não caça ratos; caça rastros. Onde alguém imagina ver pegadas que conduziriam à areia movediça, ela desce em mergulho e alisa o terreno com as próprias garras. Depois levanta voo, deixando a paisagem com a inocência de um jardim recém-inaugurado.
O outro Tunico, dizem, prefere operar da margem oposta. Joga pedrinhas calculadas para medir a profundidade, mas cada respingo é também recado. Se afunda um, ele anota. Se boia outro, ele negocia. No pântano, a ética é anfíbia.
E assim o mercado vai aprendendo que planilha não flutua.
Há dias em que a lama parece recuar, estancar, como se a crise tivesse sido apenas um susto de imaginação. Mas basta um novo vazamento, daqueles precisos, cirúrgicos e oportunos, para que o chão volte a respirar sob os pés dos distraídos. E como pântanos são pacientes, sabem esperar.
À noite, quando a cidade dorme, os dois Antônios conversam com a telepatia de Rita Lee. Não sobre fazer amor, longe do contista assumir isso. Eles não precisam de telefone. Mesmo porque, quem compartilha o mesmo brejo entende a língua das bolhas.
Lá longe, o flamenguista ainda tenta descobrir de onde veio o chute que desmontou a jogada. Olha para um lado, para o outro, e a única certeza é a de que alguém vestindo a própria camisa resolveu comemorar com o rival.
No pântano, lealdade é artigo que afunda primeiro. E o técnico, quando assiste impassível a derrota se aproximar, demonstra arrependimento de ter mexido no time que estava vencendo, mesmo que com a torcida dividida. Mudou a defesa. O time deixou a Primeira Divisão para disputas regionais. E não é culpa de nenhum vascaíno se o Caixote criou um papelão.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
