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Tiago morava num quarto e sala que dividia com um amigo

Foi nos idos de 1975, na festa móvel de Lisboa, a cidade das bandeiras vermelhas, fados e guitarradas.

Tiago (codinome, o nome de batismo não era importante) morava em Amadora, município da Grande Lisboa, num quarto e sala que dividia com um amigo, codinome Telmo, e uma amiga, codinome Rosa (de Rosa Luxemburgo, evidente). Todos descasados, ou quase (o quase era ele, Tiago, casado ma non tropo, em processo de separação).

Nas férias escolares, pessoas de toda a Europa, entre elas a quase totalidade dos brasileiros no Velho Mundo, correram para a capital portuguesa. Praticamente todos de esquerda, ansiosos para ver uma revolução em andamento. E trepar muuito, que ninguém é de ferro. Pensões e hotéis baratos ficaram lotados, e muitos se hospedaram na casa de companheiros. Foi o que aconteceu com Tiago e os dois amigos, abrigaram duas francesinhas, Marie e Anne, importação de Rosa.

Como Tiago morara 2 anos em Paris, antes de mudar com armas e bagagens para Lisboa, fui nomeado intérprete oficial das gringas. Elas não se conheciam na França e provavelmente jamais seriam amigas. Marie era da Normandia, uma mulher grande, de carnes fartas e seios enormes, uma valquíria da mitologia nórdica; internacionalista, identificava-se com os revolucionários chilenos, e sonhava em ir pro Chile enfrentar, com os compañeros, as hordas de Pinochet – isso, num momento em que chilenos com um mínimo de bom senso fugiam por todos os meios da brutal repressão no país. Anne, mignon, de seios pequeninos, tinha deliciosos braços roliços e olhinhos apertados. Era maoísta (o que talvez explicasse os olhos puxados), pensava numa revolução na França não nos moldes de maio de 68, mas no cerco das cidades pelos campos, segundo a receita de bolo do livrinho vermelho de Mao. Delírio absoluto.

Desde o primeiro dia, pintou um clima entre Marie e Tiago. Na tarde seguinte, os dois avisaram à comuna de Amadora que iriam a Lisboa comprar Le Monde. Não era longe, uns 20 minutos de metrô. Até compraram o jornal, mas, antes de lê-lo, foram a um hotel e transaram feito coelhinhos. Horas depois, encantada com o charme e o veneno do exilado brasileiro, Anne confessaria que, ao ver Tiago, pensou, “Je vais me taper ce mec”, ou seja, “vou passar esse carinha na cara”. O que é meio pleonasmo, mas muito gostoso.

Só que havia alguns códigos de etiqueta revolucionária a serem seguidos. Em termos políticos, podia-se e devia-se discutir a situação portuguesa – o que era feito por horas a fio, Tiago servindo de intérprete – mas jamais os projetos suicidas de Marie de ida ao Chile ou a estratégia maoísta de Anne para a nova revolução francesa. Em termos comportamentais, era malvisto ficar de casal, a menos que já se fosse um e se estivesse disposto a correr riscos (a revolução dos gajos podia não ser permanente, mas o descasalamento era). Afinal, as moças tinham ido a Portugal para viver uma revolução política e nos costumes, e isso pressupunha dar mais que chuchu na cerca e conhecer revolucionários e revolucionárias sem roupa, numa cama. Quanto mais, melhor, mais divertido.

Após uns 3 dias de muita trepação, a franco-chilena tornou claro que estava a fim de novas aventuras, a fila andava. Ao chegarem em casa, Rosa, Telmo e Tiago a encontraram deitada no sofá, abraçada com um amigo brasileiro. Totalmente vestida, mas o aviso prévio fora dado. As sobrancelhas de Tiago foram até a nuca, ele e os dois cúmplices de apartamento se entreolharam, sem falar coisa alguma. Noblesse não sei, mas etiqueta revolucionária oblige.

A etiqueta também aconselhava que Marie e Tiago não saíssem mais juntos. Assim, ela ficou pra trás (talvez pra taper o mec do sofá à vontade), enquanto Telmo, Rosa, Tiago e Anne foram a um bar um pouco mais sofisticado que as espeluncas que costumavam frequentar. O local tinha uma pequena pista de danças e oferecia uma excelente seleção de bebidas. Tiago foi apresentado ao absinto, a “fada verde” dos poetas e artistas plásticos da Belle Époque. Adorou.

Lá pelas tantas, muito loucos de absinto, Tiago e Anne dançavam quando ela começou a beijá-lo. Tiago desatou a rir, antevendo a cagada que ia acontecer no coletivo de Amadora. Além do mais, ele era trotskista, ela maoísta… Mas depois parou de rir, os beijos foram retribuídos, ficaram mais intensos, mais gostosos… A fada sugeria uma aliteraçãozinha, os hormônios franco-brasileiros concordaram e apressaram-se a ir em frente.

Mas havia um probleminha: grana. Os dois simplesmente não tinham dinheiro para um hotel. E transar encostado no muro não dava, à noite faz frio em Lisboa. Voltaram pra Amadora, com o tesão a mil, e decidiram improvisar.

Na sala, transformada à noite em dormitório comum, não dava, Marie estava dormindo ali com um sorriso nos lábios, provavelmente pensando no Chile, no mec do sofá ou, vai saber, em Tiago. Ele e Anne deram um tempo pra que todos dormissem e então avançaram silenciosa e cautelosamente para os domínios de Rosa, que tinha o privilégio de dormir no quarto, numa cama. Deitaram-se no chão, junto ao móvel, e começaram a transa mais desconfortável de suas vidas.

Pra começar, nada de tirar a roupa, Anne só levantou o vestido e afastou a calcinha. E nem pensar em gemer ou falar barbaridades deliciosas, em português ou francês. Mesmo assim ficou gostoso. Anne e Tiago se animaram e partiram para um 69, ela por cima.

Nesse momento, Rosa acordou para ir ao banheiro. Pisou com força no chão – quer dizer, na bunda de Anne – desequilibrou-se e se estatelou no solo. Por sorte, não se machucou seriamente, mas deu um berro de surpresa e dor. Todos acordaram, correram pro quarto – e viram Rosa caída no assoalho, enquanto Anne e Tiago tentavam rapidamente arrumar-se, tendo nos olhos a expressão culpada de um cachorro que comeu linguiça.

Ao amanhecer, a atmosfera estava gélida no apartamento de Amadora. Ninguém falava nada, a etiqueta assim o exigia, mas os olhares de censura e desprezo dirigidos ao casal transgressor (a palavra “pecaminoso” jamais era usada) eram eloquentes. Tiago puxou o carro, Anne fez o mesmo – transaram mais umas três vezes, depois tchau e bênção – enquanto Marie, ostentando no rosto uma expressão de esposa ultrajada, ficou com sua amiga Rosa e Telmo. E o mec do sofá, satisfeitíssimo em ganhar uma vaga no apartamento e uma normanda de carnes fartas e seios enormes. Pelo menos por alguns dias, que a festa móvel lisboeta jamais parava.

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