O traço masoquista se forma a partir de uma ferida sutil e profunda: a ferida da humilhação. Essa ferida não precisa ser gritante para marcar; ela surge quando a criança aprende, através de experiências repetidas, que sentir, querer ou expressar-se livremente gera punição, vergonha ou diminuição. Ela entende, mesmo que silenciosamente, que o prazer ou a espontaneidade são perigosos e que a própria expressão pode atrair dor.
O ambiente que forja o masoquista pode ser abertamente crítico, sutilmente ridicularizante, excessivamente controlado ou punitivo. A criança sente que não tem direito de errar, de ser imperfeita ou de ser vista em sua essência mais genuína. O corpo, então, aprende uma lição primordial: a dor é inevitável e sobreviver significa aguentar, carregar e internalizar sofrimento. A força, nesse contexto, nasce da capacidade de suportar.
Na linguagem corporal, o masoquista pode apresentar um físico que parece “carregar o mundo”: quadris inclinados para dentro, musculatura tensa e endurecida, corpo pesado, postura curvada como se protegesse o centro vital. Não se trata apenas de aparência: é a memória corporal de um sistema que aprendeu a carregar peso para se proteger. Cada músculo contraído, cada gesto contido, cada respiração curta carrega a lição implícita: suportar é necessário para existir e ser aceito.
Na vida adulta, o traço masoquista se manifesta como uma tendência crônica a aceitar mais do que deveria carregar, responsabilidades que não são suas, permanecer em relações desgastantes e trabalhar excessivamente para provar seu valor. Existe uma profunda dificuldade em estabelecer limites claros, enquanto uma necessidade compulsiva de controlar a própria imagem e agradar aos outros se mantém sempre presente, como um motor de ansiedade.
No cotidiano, isso se expressa em situações práticas e reconhecíveis:
– Assumir tarefas e obrigações que sobrecarregam, muitas vezes por não conseguir delegar ou recusar.
– Aceitar humilhações, críticas ou desrespeito sem contestar, por medo de conflito ou de perder o afeto.
– Sentir uma culpa intensa e desproporcional por pequenas falhas ou por colocar as próprias necessidades em primeiro lugar.
– Dificuldade crônica de dizer “não”, mesmo quando isso claramente prejudica o próprio bem-estar.
– Acumular peso físico ou tensão muscular crônica como reflexo direto do “carregar” emocional.
O corpo explica a psique: suportar a dor virou o principal mecanismo de sobrevivência.
O masoquista aprendeu a transformar a humilhação em uma força silenciosa de resistência, mas ao custo altíssimo de tensão constante e desgaste emocional. Paradoxalmente, o sofrimento pode trazer uma estranha sensação de familiaridade e até de identidade: “Se eu sofro, eu existo e sou forte”.
A cura do traço masoquista não passa por simplesmente “pensar positivo”, mas por reconhecer, de forma visceral, a própria dignidade inata e o direito de sentir prazer e expressar-se sem punição. É um caminho de reconquista da autonomia. O processo terapêutico envolve:
– Aprender a colocar limites de forma firme, clara e saudável, entendendo que dizer “não” é um ato de autorrespeito, não de rejeição.
– Reconhecer e expressar sentimentos de raiva, tristeza e medo sem culpa, dando voz à criança interior que foi silenciada.
– Permitir conscientemente o prazer, a leveza e a espontaneidade, desafiando a crença de que felicidade é perigosa ou merecida apenas pelo sacrifício.
– Reorganizar o corpo através de práticas que soltem a tensão crônica, liberando o peso físico que carrega a história da dor emocional.
Quando o masoquista compreende, no corpo e na alma, que sua força verdadeira não depende do sofrimento constante, algo profundo se desarma. O corpo relaxa, a respiração se aprofunda e a mente permite fazer escolhas conscientes, não movidas pelo medo. A incrível sensibilidade e a empatia que caracterizam o masoquista permanecem, mas deixam de ser mecanismos de autopunição para se tornarem fontes de conexão genuína.
A pergunta que inicia a grande transformação é simples, mas revolucionária:
“Que dor eu tenho carregado para sobreviver, e como posso aprender a viver sem ela?”
Na próxima semana, continuaremos nossa série explorando uma das estruturas de caráter mais complexas e estigmatizadas. Não perca: “Traço Psicopata/controlador: O controle como escudo contra a traição”.
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Marina Dutra – Terapeuta
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