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Traço Oral: a ferida do abandono e a busca constante por sustentação

O traço oral se forma a partir da ferida do abandono. Mas abandono, aqui, não deve ser entendido apenas como ausência física. Na linguagem do corpo, abandono é falta de sustentação emocional. É quando a criança não sente que pode contar de forma estável com quem deveria nutrir, acolher e proteger.

Pode ser uma mãe deprimida, exausta, ansiosa, ambivalente ou emocionalmente indisponível. Pode ser um ambiente onde o cuidado existe, mas não é previsível. A criança nunca sabe se será atendida ou ignorada. E o corpo aprende isso antes da mente.

O bebê não pensa: “estou sendo abandonado”.
O corpo sente: “não sei se vem”.

Essa instabilidade cria um vazio profundo. Um buraco interno que não se fecha com explicações racionais. A energia vital, que deveria fluir para a construção da autonomia, fica presa na busca por sustentação. O corpo aprende a pedir, a sugar, a agarrar.

Na visão reichiana, o traço oral se expressa em um corpo com dificuldade de sustentação energética. Pode ser mais flácido, mais “fofo”, ou aparentar fragilidade estrutural. Não é regra estética, é sensação corporal: falta chão interno.

Na vida adulta, essa marca aparece como uma constante busca externa por aquilo que faltou dentro. O outro vira fonte de segurança emocional. Relações, comida, fala, prazer, compras, redes sociais — tudo pode ser usado como tentativa de preencher o vazio.

O oral ama profundamente, mas também depende. Ele se apega rápido, sente medo intenso de ser deixado e, muitas vezes, aceita menos do que merece para não perder o vínculo. Vive uma oscilação constante entre carência e frustração.

No cotidiano, essas dinâmicas se manifestam de forma prática e por vezes angustiante: a ansiedade que surge quando o outro demora a responder, a sensação sutil de abandono mesmo dentro de relações estáveis, a dificuldade de estar só consigo mesmo. A fome emocional frequente busca preencher um vazio, enquanto a necessidade de falar muito atua como uma válvula para aliviar uma angústia interna. Muitas vezes, esse padrão culmina em relações desequilibradas, nas quais se dá consistentemente mais do que se recebe, perpetuando um ciclo de carência e esgotamento.

O corpo explica: quando o afeto falhou, a boca virou porta de entrada de alívio. Comer, falar, beijar, fumar, roer unhas, tudo passa pela oralidade. Não por fraqueza, mas por memória corporal. O problema não é sentir necessidade do outro. Somos seres relacionais. O problema é precisar do outro para existir emocionalmente. A cura do traço oral não acontece pela independência forçada. Pelo contrário. Ela começa quando a pessoa aprende a se sustentar internamente com presença, constância e autocuidado real. Não é “se virar sozinha”. É aprender a ser companhia de si.

No processo terapêutico, o caminho de transformação se constrói a partir de um olhar acolhedor e ativo sobre si mesmo. Inicia-se com o reconhecimento profundo da ferida do abandono, porém sem alimentar uma postura de vitimização, transformando-a em ponto de partida para a compreensão. Aprende-se, então, a identificar a fome emocional e a distingui-la da necessidade física, criando espaço para novas escolhas. Paralelamente, constroem-se rotinas sólidas de sustentação interna, pequenos rituais que ancoram e nutrem. O fortalecimento do corpo, através de práticas conscientes, gera uma sensação concreta de “chão”, de presença e segurança. Por fim, esse processo interno abre caminho para o desenvolvimento de vínculos mais equilibrados, onde a troca flui de um lugar de plenitude e não de carência.

Quando o oral entende que pode se nutrir emocionalmente, algo muda profundamente. Ele continua sensível, amoroso e conectado — mas deixa de implorar por presença. Passa a escolher.

A pergunta que inicia a cura é simples e profunda: “O que eu estou buscando fora que nunca aprendi a me dar?”

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Marina Dutra – Terapeuta
Instagram: @sersuperconsciente
E-mail: sersuperconsciente@gmail.com

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