Depois que fui morar no Rio Grande do Sul, percebi algo que talvez não esteja claro para quem é de outros estados ou nunca esteve por lá: existe um trauma coletivo profundamente enraizado, relacionado ao incêndio da boate Kiss. Não se trata apenas do luto, que por si só já é imenso e atravessa gerações, mas de uma dor que persiste porque, passados tantos anos, ainda permanece a sensação amarga de impunidade. É como se a ferida nunca tivesse sido devidamente cuidada; cicatriza por fora, mas segue aberta por dentro.
Conheço muita gente que evita passar pelas proximidades de onde tudo aconteceu. Há quem mude o trajeto, quem baixe o tom de voz ao mencionar o assunto, quem simplesmente silencie. Outros sequer conseguiram assistir à série sobre a tragédia, mesmo não tendo perdido ninguém diretamente. O trauma não é apenas individual; ele circula, se espalha, se instala no cotidiano, nos cuidados excessivos, no medo de ambientes fechados, na desconfiança diante de festas, shows e casas noturnas.
Eis que, neste fim de ano, esse trauma voltou a latejar com força ao assistirmos a uma tragédia semelhante acontecer na Suíça. A mesma dor. O mesmo crime. A mesma cadeia de irresponsabilidades. Mais de quarenta mortos, mais de cem feridos. Números que tentam dar conta do indizível, mas não conseguem traduzir o que realmente importa: vidas interrompidas, famílias devastadas, futuros que não acontecerão. É impossível não reviver tudo. É impossível não sentir que falhamos de novo, como humanidade.
Esses episódios escancaram o quanto aprendemos pouco com a dor alheia e, às vezes, nem com a nossa própria. A repetição da tragédia, em países diferentes, contextos distintos, revela que o problema não é apenas local: é estrutural, é cultural, é ético. Falta fiscalização, falta responsabilidade, falta respeito pela vida.
Que todos encontrem algum consolo, no Brasil ou na Suíça. Que a memória dos que partiram não seja apenas lembrança, mas também compromisso. Compromisso de não naturalizar o evitável. Porque nenhuma dor deveria precisar se repetir para ser levada a sério.
