A MENINA E AS MULHERES
a uma moça que acaba de nascer
Chega, parida de sangue
e larga de berro na partida.
Como bicho ferido, lateja.
Ah, nossa mãe! Ela vem tarde ou cedo?
Todas nós, fora do tempo.
Ah, nossa avó! Como estão Marias dos testamentos?
Onde Cecília? Entre o planeta e o sem fim, a asa de uma borboleta.
Onde Clarice? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário…
Onde Cora? Papéis de circunstâncias eram todos aqueles papéis que pertenciam a ela.
Como?
E Carolina? Onde? Está chovendo.
Ah, minha filha, todas, todas dentro da gente.
Menina, vieste ao mundo,
chamo-te minha irmã.
NOTÍCIA DE AGOSTO
um
dois
três
quatro
cinco
seis
sete
oito
nove
dez
dez homens estupraram uma menina de treze anos.
um corpo inerte v á c u o
o c o.
praia grande, são paulo
livramento
morro do barão
rio de janeiro
juiz de fora
rua ou esquina qualquer
a carne avassalada estampada no jornal.
das letras, escorrem grossas gotas de sangue e lágrima.
e os eloquentes bradam nas ruas:
a culpa foi da moça que usava saia curta
pobre monstra estúpida
calada
talhada em carne, sangue e lágrima
no jornal.
renascerá? talvez mude de nome.
TAQUARA RACHADA
Voz de taquara rachada
era voz de menina que corria feliz
e acordava a casa da fazenda.
Vó constrangia menina:
— Taquara rachada!
Tentava,
menina não ligava.
Gostava mesmo de levantar cedo
e correr para o curral,
tomar leite morno
que esguichava na caneca
e a espuma explodia na boca.
— Como não cantar?
Pena que vó não ouvia sereia
ou alegria
ou infância
ou festa
ou sol nascendo
ou flor se abrindo.
Só ouvia taquara rachada.
Ah… coitada de vó.
……………
Marcela Hallack é servidora pública e poeta, autora de “Versos de Liberdade: um colóquio contemporâneo”
