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Trump e Bibi escondem força do Irã e guerra vira versão de palavras

Há algo de profundamente revelador acontecendo no atual conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel. Enquanto os céus do Oriente Médio continuam riscados por mísseis, drones e explosões, cresce em paralelo uma movimentação silenciosa para controlar aquilo que o mundo pode ou não enxergar.

Não se trata apenas de uma guerra convencional. O que se vê e ouve é uma guerra em que a informação passou a valer quase tanto quanto o poder de fogo.

Nos bastidores de Washington, relatos divulgados por veículos como a CNN indicam pressão crescente sobre emissoras de rádio e televisão que vêm apresentando um quadro menos alinhado ao discurso oficial sobre a ofensiva contra o Irã. O incômodo estaria justamente no fato de algumas coberturas exibirem, sem filtros, que Teerã continua respondendo militarmente e mantendo capacidade operacional, apesar dos ataques coordenados por americanos e israelenses.

Ao mesmo tempo, em diferentes capitais europeias, governos passaram a alertar cidadãos que vivem ou circulam pelo Oriente Médio sobre os riscos de divulgar vídeos dos bombardeios iranianos ou das consequências imediatas dos ataques em solo regional. A recomendação, em vários casos, já não soa apenas diplomática, uma vez que assume contornos de advertência política, como se registrar a guerra pudesse se tornar, em determinadas circunstâncias, um ato inconveniente demais para tempos de tensão estratégica.

Enquanto isso, a O Regimento da Guarda Revolucionária Islâmica, faz exatamente o oposto ao divulgar imagens, comunicados e demonstrações sucessivas de força. Nesta segunda-feira, 16, foi anunciada (e apresentada em vídeos) uma nova onda da chamada Operação True Promise IV, afirmando ter atingido áreas de Tel Aviv, o Ben Gurion Airport, instalações ligadas à indústria aeroespacial israelense e estruturas de apoio militar associadas a operações de reabastecimento aéreo. Teerã também reivindicou ataques contra instalações americanas no Golfo, incluindo a base naval de Juffair, no Bahrain, e a base aérea de Sheikh Isa.

Segundo o comunicado iraniano, foram empregados mísseis hipersônicos Fattah, além dos sistemas Emad e Ghadr — armamentos que Teerã produziu em parceria com a Rússia e exibe não apenas como ferramenta militar, mas como mensagem política de que o país continua de pé, mesmo sob pressão máxima.

É justamente aí que reside o ponto mais sensível deste conflito. Se o Irã estivesse efetivamente neutralizado, como insiste em dizer Donald Trump, não haveria tamanho esforço internacional para modular a narrativa pública da guerra.

O mundo passa a assistir a um fenômeno conhecido em guerras prolongadas, o de quanto maior a dificuldade de produzir vitória rápida no campo militar, maior a necessidade de administrar percepções. A guerra deixa de ser apenas territorial e se transforma numa disputa sobre quem controla a versão dos fatos.

A diferença é que, desta vez, as redes sociais tornaram impossível isolar completamente o campo de batalha. Um míssil lançado em segundos pode ser filmado, transmitido e analisado em escala planetária antes mesmo de qualquer nota oficial ser divulgada.

Por isso, talvez a maior disputa neste momento não esteja apenas entre radares, interceptadores e arsenais estratégicos. Ela ocorre também entre governos que desejam reduzir danos políticos internos e um fluxo global de imagens que insiste em mostrar que o conflito está longe de caber numa narrativa única.

No fim, toda guerra revela duas frentes: 1) a que explode diante das câmeras; 2) e, a que trabalha para decidir quais câmeras continuarão ligadas. E, em certas horas, aquilo que se tenta esconder acaba dizendo mais do que aquilo que se anuncia.

O que mais inquieta outras nações, porém, talvez não sejam apenas os mísseis iranianos ou a resistência militar de Teerã. O verdadeiro temor está no efeito dominó de uma guerra prolongada, com petróleo pressionado, mercados nervosos, inflação reacendida, rotas marítimas ameaçadas e governos ocidentais obrigados a administrar uma opinião pública cada vez menos disposta a aceitar novos custos geopolíticos.

Nos Estados Unidos, cada nova escalada toca diretamente o ambiente político interno, porque nenhum governo atravessa um conflito prolongado sem pagar preço eleitoral. Na União Europeia, o receio é de que a instabilidade do Oriente Médio volte a produzir energia cara, insegurança migratória e fissuras diplomáticas entre aliados.

No fundo, mais do que uma guerra entre Estados, começa a surgir uma disputa silenciosa entre o tempo militar e a resistência política. Porque – e isso faz parte da história -, há combates que os arsenais sustentam, mas que as economias e os governos nem sempre conseguem suportar por muito tempo.

Veja os mísseis do Irã em ação

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