Notibras

Trump vira Nero digital ao expor Maduro como troféu de terrorismo

Ao longo da minha carreira jornalística – e lá se vão meio século e metade de uma década – cobri por um bom período o Itamaraty e o corpo diplomático acreditado em Brasília. Cruzei os portões da festiva, embora traiçoeira, embaixada dos Estados Unidos; os da então União Soviética, imponente, como que coberta por uma cortina de ferro; e os da China, tão silenciosa que me fazia imaginar-me no jardim de um mosteiro no topo do Himalaia.

Com a experiência adquirida nas conversas com adidos de imprensa, secretários e um ou outro embaixador, aprendi que há momentos na História em que não cabe neutralidade, nem ponderação diplomática, muito menos aquele vocabulário frouxo que transforma crime em movimento estratégico. Permito-me afirmar, portanto, que a imagem divulgada por Donald Trump exibindo Nicolás Maduro vendado, algemado e exposto como troféu de guerra, indica que não estamos assistindo a uma crise internacional comum, mas que presenciamos um ato de barbárie travestido de poder.

Não se trata de simpatia ou antipatia por Maduro. Isso é irrelevante. Até porque, ditadores não perdem automaticamente a condição de chefes de Estado aos olhos do Direito Internacional. O que Trump fez foi algo muito mais grave, uma vez que rasgou a Carta da ONU em praça pública, diante de câmeras, e sorriu.

Nunca ficou tão claro que Trump não governa como estadista, mas como produtor de conteúdo bélico. A foto postada nas redes sociais não comunica força, mas desprezo absoluto por qualquer limite civilizatório. Ao reduzir um presidente estrangeiro a objeto de humilhação, Trump inaugurou uma doutrina perigosíssima, tendo o sequestro de um desafeto como narrativa política.

Se a moda pega (cuidado, Lula), nenhum governante do mundo estará seguro. Não por ser culpado, mas por ser fraco demais para se proteger. A exceção fica para quem tem o botão das armas nucleares. Aí, o bicho pega.

Trump – redimindo o que foi dito aqui – não age como imperador, porque imperadores, ao menos, tinham consciência do peso histórico de seus atos. O hoje ocupante da Casa Branca se comporta como um Nero tardio, incendiando a ordem internacional enquanto toca sua lira digital para uma plateia interna sedenta por espetáculo e revanche.

O problema é que o mundo real não é reiniciado após o incêndio. E a China e a Rússia, com investimentos trilionários na república bolivariana, não estão aplaudindo. Apenas tomam conhecimento e anotam. Quem espera uma reação imediata de Pequim ou Moscou em forma de mísseis demonstra incompreensão estratégica. As grandes potências não reagem no calor do espetáculo. Elas memorizam, fazem seus cálculos e ajustes necessários.

O recado que Trump envia não é apenas à Venezuela. É à China, à Rússia, ao Irã, à África, à América Latina inteira. É como se o fantasiado Tio Sam dissesse que o Direito Internacional acabou e valem as regras de quem pode mais. E essa mensagem terá resposta. Não hoje. Talvez não amanhã. Mas em algum ponto do planeta onde Washington não controla o tabuleiro.

A História ensina, sob, sobre e ao lado de cadáveres, que atos de força espetacular não intimidam indefinidamente. Eles alimentam ressentimento, fanatismo, ações solitárias, terrorismo difuso, violência fora de qualquer cadeia de comando. E Trump parece ignorar uma lição elementar: ninguém controla o ódio que ajuda a fabricar. Porque quando o Estado vira predador explícito, ele autoriza todo tipo de loucura em nome da vingança, da fé, da pátria ou da insanidade pura.

O mais assustador não é a imagem de Nicolás Maduro preso, algemado. É o precedente. Se isso passa sem reação firme da comunidade internacional, o mundo entra numa era em que não há mais linhas vermelhas, apenas conveniências momentâneas. Se hoje foi Caracas, amanhã pode ser qualquer capital. Qualquer líder. Qualquer país fora do eixo do poder.

O ataque traiçoeiro de Trump não foi para defender a democracia, mas para ensinar o mundo a desprezá-la. Foi para roubar o petróleo, as riquezas do povo venezuelano. E quando a barbárie vira política oficial, o planeta não caminha para a ordem. Marcha, sim, para o acidente. Algo grande, irreversível e global.

………..

José Seabra é CEO fundador de Notibras

Sair da versão mobile