A postagem de meu texto Eu já provocou algumas reações inusitadas.
Uma velha amiga, amiga presencial, de carne e osso, ofereceu-me flores virtuais. Fiquei agradecido.
Outra, amiga do Face, pontificou: “Brincar no amor e namorar faz parte da vida em qualquer idade. Quem desiste de amar desiste da vida”.
Concordo com a primeira frase. Brincar no amor, namorar, é sempre uma delícia – apesar de minhas ressalvas, expressas no texto. Mas quanto à segunda…Amar é algo que vai muito além de declarações vazias, tipo “Te amo, mozão”. É um sentimento que requer uma disponibilidade, uma aceitação dos riscos de mergulhar de cabeça, de chegar junto e conferir qual é a da(o) parceira(o). Sinto muito, as amigas que louvam o amor que perdoem, mas não tenho mais essa disponibilidade.
Uma segunda amiga do Face foi mais direta: “Pensei que você tinha morrido… rsrs”. Nonada, os boatos sobre minha passagem contêm uma pontinha de exagero. Eu já não é uma crônica psicografada, nem sei se existe esse gênero nas redes sociais. E antes que me esqueça, moça, vira essa boca pra lá!
Amigos mais próximos, em contato comigo pelo zap, foram igualmente diretos. Um deles escreveu: “Orra, meu, você tá numa deprê arretada, né não?”. Nem respondi, não adiantava negar.
Finalmente, uma amiga da boa e velha Abril Cultural matou a charada. Ela comentou: “Gostei! Tudo passa, tudo tem um fim…”
Descartando a citação (involuntária, espero) da canção Tudo passa, de Nelson Ned, ela percebeu que o texto é sobre o tempo, ou antes, sua passagem. No romance Shoshana, e em numerosos contos, escrevi que o tempo é uma pantera, cujas garras afiadas nos ferem o corpo e o psiquismo. Ou seja, não se trata de um texto sobre a morte, e sim sobre o que ocorre antes: a perda gradativa das facetas de um viver rico e prazeroso. Como ensinou o mestre Millor Fernandes (acho que foi ele, minha memória virou uma lama), “viver dói”.
Todas essas admissões são verdadeiras? Sim, ma non troppo.
Porque convém não esquecer a lição de outro mestre, o poeta português Fernando Pessoa, no poema Autopsicografia: “o poeta (e também o contista, o cronista, todo pastor de letras) é um fingidor…”
Alguém que para produzir um poema, uma crônica, um conto, mata-se em determinada página, para renascer páginas depois, em outro poema, crônica ou conto.
Alguém que amplifica (ou minimiza) seus sentimentos reais, para poder exprimi-los com elegância em um texto. Prossegue a lição de Fernando Pessoa: “…finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente”.
Então, cambada de messiedames, meus queridos leitores e leitoras, mão se deixem enganar por confissões lancinantes, depoimentos sobre paixões inesquecíveis, testemunhos às vésperas do suicídio, cometidos por mim ou por outros cultores do ofício de escrever. Com algumas raras exceções, é tudo ficção, peritagem, brincadeirinha.
