O jantar entre amigos marcava o retorno de um deles à Brasília após muitos anos morando longe. Tudo corria bem, até a fatídica pergunta:
— O bebê nasce quando?
O casal e todos na mesa encararam Carlos, surpresos. Lucélia rompeu o silêncio primeiro:
Vocês estão esperando um bebê? Que ótima notícia!
As palmas e vivas dos demais amigos não haviam cessado quando Melina, que só agora se recuperava do choque, quase aos berros interpelou Cléber:
— Você contou para ele? Não havíamos combinado de que nossos pais seriam os primeiros a saber do neném?
A balbúrdia cessou, substituída pelo silêncio absoluto e olhares de expectativa para Cléber.
— Mas eu não… —Não concluiu a frase, pois Melina já se retirava em direção à porta, mal contendo às lágrimas diante da decepção com o marido, que se levantou em seguida, mal ouvindo o pedido de desculpas do amigo inconveniente.
Carlos sentia-se péssimo por ter estragado o jantar. Há instantes, estava feliz por seu melhor amigo, mas agora desejava apenas desaparecer. Desculpou-se com os colegas e saiu. Em casa, ligou para Cléber, receoso de que o amigo não atendesse, mas logo ouviu sua voz nada amistosa:
— O que diabos foi isso?
— Olha, Cléber, eu sinto muito, não era minha intenção, é que eu estava tão feliz por vocês e…
— Eu sei, Carlos, somos amigos há muito tempo e sei que não queria fazer mal — Carlos sentiu um alívio enorme diante daquela reação mais amável do que esperava, mas só até ouvir a pergunta:
— O que não entendo é: como você sabia que estamos esperando um bebê? Tenho plena convicção de que não contei para ninguém.
Carlos também estava confuso, tentou se recordar de como ficará sabendo da novidade, de fato não se lembrava de Cléber ter lhe contado.
— Carlos, preciso desligar, depois nos falamos.
Deitou-se, mas custou a adormecer, esforçando-se por recordar exatamente como recebeu aquela notícia que tanto o constrangera. Considerava aquela ocasião o episódio mais vergonhoso de sua existência… ao menos até os acontecimentos posteriores.
No dia seguinte transformou-se no pivô de todo tipo de confusões no trabalho. Bastava abrir a boca para inadvertidamente expor fatos alheios que seus colegas de forma alguma queriam tornar público. Foi assim que, por exemplo, deixou a colega do RH em prantos ao questioná-la se já se recuperara da decepção por descobrir que seu namorado dormia com sua prima, do mesmo modo por pouco não levou um soco do responsável pelo estoque ao alegremente comentar em público que havia sido uma demonstração de bondade enorme o Diretor permitir que aquele levasse equipamentos de informática para casa para seu uso pessoal — O que obviamente não era de conhecimento de ninguém, muito menos do tal diretor.
Naquele dia chegou em casa com os nervos em frangalhos. Ele que sempre fora uma pessoal gentil e querida por todos de repente se transformara, contra sua vontade, em um monstro insensível.
Nos dias seguintes, a situação piorou consideravelmente, não havia uma interação sequer, com qualquer pessoa que fosse, que Carlos, por mais que se esforçasse, não metesse os pés pelas mãos. Ninguém mais se referia a ele pelo nome. Virou o “boca aberta”, “linguarudo”, “o espião”, “Boca podre” e outras coisas piores.
Carlos sofria calado e sozinho, pois a essa altura já não havia amigo ou parente disposto a passar um minuto sequer ao seu lado. Não compreendia que espécie de dom, ou no caso maldição era esse que bastava se aproximar de uma pessoa para conhecer e mencionar aquilo que ela mais gostaria de esconder no momento.
Não tardou para que o problema escalasse até o ponto de abalar sua carreira. Estava certo de que seria demitido quando, após uma semana de caos provocada pela sua involuntária indiscrição, foi chamado à sala do Diretor. E de fato esse seria seu destino, se em mais um arroubo incontrolável não houvesse mencionado o caso extraconjugal com a vizinha que seu chefe queria a todo custo esconder. Achando se tratar de algum tipo de chantagem e temendo pelo escândalo, o Diretor ofereceu a Carlos a oportunidade de continuar suas atividades em home-office até que demonstrasse um pouco mais de equilíbrio no trato com as pessoas.
Era a primeira vez que sua recém adquirida habilidade lhe proporcionava algum benefício, pois pensou que trabalhando em casa teria menos chances de se meter em confusões.
As semanas passaram e o problema só aumentava. Aprendeu que não podia mais abrir a boca em público sem provocar um rebuliço, como na vez em que parabenizou a funcionária do caixa da padaria pelo novo emprego que esta assumiria em breve, diante dos olhares perplexos da Gerente do estabelecimento enraivecida por agora ter que arrumar um substituta às pressas e da funcionária que não fazia ideia como esse estranho sabia do novo emprego. Sair em público tornou-se uma tortura, ainda que ficasse calado, seus pensamentos eram invadidos por toda espécie de segredos alheios.
Buscou terapia, mas sem êxito, recusando-se a aceitar as suspeitas do diagnóstico de esquizofrenia sugerido pelos profissionais.
Tornou-se solitário, recluso e com um tempo o único momento em que saia de casa era no final da tarde para ver a famosa vista do pôr do sol na praça do Cruzeiro. Levava uma cadeira de praia e buscava um local o mais longe possível das pessoas e de seus pensamentos. Admirava cada ocaso como seu maior tesouro e na contemplação do horizonte residia o pouco que lhe restava de felicidade.
Há tempos ele não se demorava observando outras pessoas, pois só isso era suficiente para inundar sua mente com toda sorte de pensamentos que as pessoas queriam esconder. Quando já estava no auge do desespero e mesmo os mais belos crepúsculos já não lhe traziam o tão desejado silêncio em sua mente, algo diferente ocorreu.
Enquanto aguardava mais um final de tarde, passou o olhar pelas pessoas espalhadas no gramado quando notou uma moça que, assim como ele, encontrava-se afastada dos demais frequentadores. No início, não soube explicar por que aquela presença chamou sua atenção. Embora fosse bela, algo mais a distinguiu: uma força difícil de nomear. De repente, percebeu que o segredo estava em não saber qual mistério ela guardava.
Por um instante, quase chorou de alegria. Acreditou estar finalmente livre daquela loucura, mas a esperança durou pouco. Assim que desviou a atenção para as outras pessoas ao redor, percebeu que sua maldição continuava ativa. Sentiu a angústia de uma mulher que, acompanhada dos filhos, havia descoberto um câncer e não sabia como contar à família. Compartilhou a alegria de um homem prestes a surpreender a namorada com um pedido de casamento. E se enojou ao captar o segredo sujo de um psicólogo que mantinha um caso com uma paciente.
Quando aquela sequência de percepções o deixou exausto, voltou o olhar para o lugar onde a moça estivera instantes antes, apenas para encontrar o espaço vazio. A decepção o atingiu, mas, ainda assim, foi embora com uma centelha de esperança. Talvez aquela mulher fosse o primeiro sinal de que sua cura, enfim, poderia estar começando.
No dia seguinte, o tormento continuou, mas ao cair da tarde, novamente notou a mesma moça observando o horizonte e assim como no dia anterior, não soube dizer o que ela ocultava.
Suas visitas diárias à Praça do Cruzeiro já não tinham mais como objetivo apreciar o pôr do sol, ao invés disso, apreciava observar a jovem em silêncio, já que — além de bela, olhar para ela representava o único momento de paz em seus conturbados pensamentos. Dia após dia, posicionava sua cadeira um pouco mais perto dela, sempre com cuidado, sempre sem ousar iniciar qualquer conversa. Temia que uma palavra fora de hora, fruto de sua indiscrição incontrolável, arruinasse tudo e lhe tirasse aquele raro alívio para sua malfadada condição.
A cada dia a mulher permanecia por mais tempo do que o anterior, o que para ele era um alívio. Quanto mais ela ficava, mais longo era o intervalo em que conseguia se afastar de sua própria aflição. Até que, numa noite em que já fazia muito tempo que o sol havia desaparecido, ouviu pela primeira vez a voz dela.
— Você também tem, né?
Demorou alguns segundos para perceber que a pergunta era dirigida a ele. Estava tão absorto na sensação de paz que a presença dela lhe proporcionava, que não percebeu que, exceto pelos dois, a praça estava completamente vazia. Permaneceu calado, paralisado pelo medo de abrir a boca e deixar escapar uma torrente de segredos indesejados — exatamente o tipo de desastre que poderia destruir aquele frágil refúgio que ela, sem saber, lhe oferecia.
— Pode falar, sei que se disser algo inapropriado, será por causa desse maldito dom, você também o tem né? Eu venho te observando há algum tempo e notei seus olhares para mim. Eu não aguentava mais a angústia de conhecer os segredos de todos que se aproximavam. Já tinha decidido acabar com a minha vida. Mas, no dia em que decidi que veria meu último pôr do sol, notei o seu olhar… e mais do que isso: percebi que eu não sabia nada sobre você.
Mesmo ali após tantos minutos interagindo nem um dos dois era capaz de saber qual grande segredo o outro guardava e assim puderam conversar até quase entrar a madrugada, como se aquela ignorância mútua fosse uma trégua rara. Ao se despedirem, combinaram de se ver de novo, para tentar entender a desgraça que compartilhavam. Pela primeira vez em muito tempo carregavam algo parecido com esperança.
Logo ficou claro que enquanto estivessem juntos seus poderes se anulavam, conseguiam ignorar os segredos alheios, bem como um do outro.
A convivência, que começou como necessidade urgente, logo se transformou em afinidade. E dessa afinidade, o salto para o amor foi quase inevitável, como se ambos apenas estivessem esperando alguém capaz de silenciar o mundo. Passaram a morar juntos e viviam praticamente grudados. A bem da verdade, tinham muito pouco em comum: gostavam de músicas diferentes, nunca liam os mesmos livros e raramente concordavam sobre um prato favorito. O silêncio entre eles era quase constante… mas não importava. Eram um casal feliz, talvez até mais feliz do que muitos outros.
Na ânsia de se livrarem do maldito dom, jamais perguntaram um ao outro que passado carregavam ou do que se envergonhavam. E, assim, viviam livres dos medos e inseguranças que costumam assombrar as relações. Aprenderam juntos que, para amar, não era preciso saber tudo, bastava sentir.
