Notibras

UM AUTÓGRAFO NO ESCRITÓRIO: GEIR CAMPOS ENTRE NÓS

Trabalho num escritório rodeado de poesia. Não bastassem meus livros, que preenchem, na prateleira mais próxima a mim, maior espaço do que propriamente os livros de direito – muito destes usamos, hoje em dia, no formato eletrônico, dentro de um dispositivo pesando poucos gramas – na mesa ao lado concentra-se, quase diariamente, meu fraterno amigo poeta Renan Damázio, autor prestes a lançar mais uma coletânea de poesias da sua lavra. Aqui pertinho, sobre um antigo rádio de mesa, como a observar-me enquanto sorve uma xícara de café, outro poeta, Augusto Frederico Schmidt, numa fotografia feita a partir do negativo original do jornal “O Globo”. E assim passam-se os dias, nos quais diálogos sobre litígios e matérias jurídicas misturam-se a poetas e literatura. Um ambiente, sem dúvida, enriquecedor.

Vez por outra, um novo ativo vem se somar a esse ambiente na forma de uma descoberta, um poeta inédito ou recém-lançado, que me apresso a convidar a colaborar com o Café Literário de Notibras, ou mesmo um livro despretensioso garimpado em sebos ou livrarias.

Um dia desses, comentava com Renan sobre uma matéria do Café Literário, escrita por Cassiano Condé no seu “O Lado B da Literatura”, que exibiu o perfil de Geir Campos, poeta capixaba da maior qualidade, um dos poucos autores, no Brasil, de uma coroa de sonetos. Meu sócio e amigo não o conhecia, lembrando-se apenas, vagamente, de eu ter comentado algo a respeito e lhe mostrado uma gravação em que o próprio poeta recitava seus poemas, contida num antigo LP disponível em aplicativo de música na internet.

Pensei que devia adquirir títulos de Geir para figurarem no acervo de nosso escritório. E fui atrás de alguns livros, que chegaram pelos correios numa semana de muitos compromissos e correria. Descobri que não há nada novo desse grande poeta no catálogo das editoras. Mas achei, de segunda mão, exemplares bem conservados de poesia e prosa de sua autoria, tudo na faixa de algumas poucas dezenas de reais.

O mais barato chegou por 14 reais, “Canto de Peixe e outros cantos”, uma primeira edição de 1977, simplíssima, em brochura, da editora Civilização Brasileira, com um encarte de errata na última capa que achei muito interessante. Somente alguns dias depois consegui dar-lhe a devida atenção e tive a maior surpresa quando percebi uma dedicatória manuscrita com autógrafo na folha de rosto, feita pelo autor em pessoa, com este conteúdo:

“Rosa, acho que um padrinho-poeta o melhor que tem a dar à afilhada é um livro, com alguns erros de revisão, mas com o carinho certo do Geir. Fev/77”.

Escrita numa cursiva bem legível e cuidada, em tinta verde, lembrou-me imediatamente Pablo Neruda, que costumava usar essa cor de tinta nos seus manuscritos. E recordei, também, que Geir Campos foi citado pelo próprio Neruda como um dos poetas brasileiros novos que ele conhecia e muito gostava, em lendária entrevista concedida a Clarice Lispector em 1968.

Não pude deixar de considerar como o tempo e o apagamento de algumas memórias pode ser implacável. Um exemplar presenteado pelo próprio autor a uma afilhada, com uma dedicatória, foi parar em mãos desconhecidas, que talvez sequer hajam percebido esse cativante detalhe, até que, por sorte, ele parou em minhas mãos para o merecido cuidado.

Fiquei alguns minutos com o livro aberto, como se a folha de rosto fosse um documento raro, desses que o tempo carimba sem aviso. “Rosa”: só um nome, e, no entanto, um mundo inteiro comprimido em quatro letras. Quem seria a afilhada? O que aconteceu com ela? Teria se mudado, morrido, esquecido, ou lembrado sempre, daquele presente? A dedicatória me pôs uma curiosidade quase jurídica, uma vontade de apurar, de reconstituir, de devolver ao destino o que o destino deixou cair.

Porque há coisas que não deveriam terminar em mãos desconhecidas; não por propriedade, mas por sentido. O livro foi dado com intenção, com promessa de afeto, e o seu percurso até o sebo parece o retrato de um país que se distrai da própria cultura: alguém limpa a casa, alguém esvazia uma estante, alguém vende por quilo, e a memória segue no lote.

Eu poderia simplesmente guardá-lo, já seria um modo de salvamento. Mas, desde que li aquela tinta verde, nasceu em mim outra obrigação: a de fazer o livro falar de novo, de recolocar Geir na roda, de procurar a “Rosa” possível, nem que seja apenas pela escrita. Afinal, se o tempo é implacável, às vezes ele se atrapalha, deixa uma pista. E, quando deixa, cabe a alguém, seja por sorte, por teimosia ou por amor, seguir.

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Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor-executivo de Notibras, poeta, advogado e professor. Autor dos livros “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho”.

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