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Um casal insuspeito

Ernesto e Adelaide formavam um casal improvável. Não que alguém pudesse levantar suspeitas sobre a afeição dos dois, a questão era outra. O relacionamento deles, apesar das aparências contrárias, não era convencional, e mais, carregado de poderes e segredos.

O marido, ávido por intimidade, era aterrorizado pelo próprio reflexo, temia decepcionar a mulher. Não que possuísse deformidades, ao menos aparentes, já que desfrutava de rosto agradável, ornado por um belo bigode, sem contar o corpo em forma, mesmo que já beirasse os 50 anos. E a prole, dois jovens tão parecidos com o pai, que nem mesmo o maior inimigo de Ernesto, que era nenhum, poderia insinuar que não seriam seus filhos, apesar de ambos carregarem os olhos cínicos da mãe.

Adelaide, para bom observador, era a líder. Bastava ver suas decisões, jamais contestadas por Ernesto, que caminhava quase imperceptíveis centímetros atrás quando o par caminhava de mãos dadas, seja na praça, seja na igreja, seja em qualquer lugar. E o esposo não demonstrava desconforto, como se aquilo fosse do seu agrado. Discussões, então, caso tivessem ocorrido, não eram do conhecimento público.

Ernesto vinha de família tradicional. Ainda rica, apesar da diluição do patrimônio ao longo de décadas entre os herdeiros. Mesmo assim, dinheiro não era algo com que o homem precisaria se preocupar, a não ser que, do nada, ele se tornasse um pródigo. Improvável, já que o sujeito era praticamente um minimalista. Não por ser sovina, mas por desprendimento das coisas materiais.

A esposa, por sua vez, mesmo não sendo muquirana, parecia entender como poucos o valor de cada vintém. Viera da classe média e, por conta do matrimônio, subira dois ou três degraus no poder de compra. Mas não pense você que a soberba lhe subiu à cabeça. Continuou praticamente a mesma Adelaide dos tempos de transporte público, só que com a cútis melhor.

A improbabilidade do casal se devia ao estranho hábito de Adelaide, que se revelava todas as vezes que os dois estavam sozinhos no sobrado: ordenar que o marido fosse passar a noite no canil. Não que tivessem cachorro, já que Sultão, o velho pastor alemão, havia falecido de causas naturais há quase dois anos. E não pense você que o Ernesto desgostasse da situação. Na verdade, ele sentia que precisava passar por aquilo para se tornar um esposo merecedor do amor da sua rainha, quer dizer, dona.

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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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