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Um conto da pandemia

Na verdade, ele não podia jurar que as cenas vistas, em seus sonhos, eram mesmo do futuro, ou simplesmente fruto de sua imaginação. Do presente não eram, com certeza: crianças lourinhas fazendo bonecos de neve remetiam a inverno europeu, e o Velho Continente estava na primavera. Mas as imagens podiam ser do passado, elas estavam de máscara. Com isso, já dava para datar. Em março de 2020, início da pandemia, ainda estava bastante frio na Europa, mas, com os lockdowns, havia poucas probabilidades de crianças brincarem na neve. Mais seguro pensar no frio seguinte, a partir, digamos, de novembro. Então, de novembro-dezembro de 2020 até…

Este era o problema: até quando? Ele não sabia, ninguém sabia. Então resignou-se a ignorar, enquanto sonhava com um futuro em que as crianças brincassem e rissem, apesar do rosto semiescondido por um pedaço de pano.

Certo dia, teve um sonho empolgante: milhares e milhares de pessoas, sem máscaras, se abraçavam e se beijavam na rua, enquanto o luminoso de Times Square (ele o vira numa viagem a Nova York e, depois, em dezenas de filmes) proclamava, It’s over!!! Acabou!!!

“Só pode ser o fim da pandemia”, pensou, feliz da vida. Mas quando? Por mais encorajadora que fosse a imagem, dava frustração não saber. Por outro lado, era a confirmação de que via mesmo cenas do futuro, não se tratava de um surto psicótico como tantas vezes temera.

Suas esperanças se reacenderam meses depois, quando viu, pela TV, a transmissão ao vivo de um concerto que presenciara, em sonho, sete meses antes. Isso lhe permitiu quantificar o fenômeno: ele sonhava com coisas que iriam ocorrer sete meses depois. Passou então a anotar cuidadosamente as datas de seus sonhos, mapeando o futuro. Ainda mais importante, como conhecia o tempo decorrido entre o sonho do concerto e o sonho de Times Square, tinha uma boa ideia de quando a pandemia iria terminar. Teve uma vontade imensa de avisar os parentes e amigos, de postar a notícia em suas redes sociais, mas resistiu, todos iriam considerá-lo um louco.

Três meses depois, de estalo, ele parou de sonhar com o futuro. Num dia, viu pessoas circulando nas ruas, sem máscara, como faziam até fevereiro de 2020; no dia seguinte, nada. Nem um fragmento de sonho. Era como se tivesse perdido essa dimensão de seu psiquismo. Ou então… reprimiu a outra possibilidade, era terrível demais para imaginar e ainda mais para dizer em voz alta.

O pior é que Sérgio continua a sonhar, mas agora tem os sonhos normais de um brasileiro maduro, de classe média. Então, há poucas chances de que seja um problema com seu universo onírico. A cada dia ele espera que as cenas vistas em Times Square apareçam na mídia. Quando aparecerem, ele sabe: três meses depois do fim da pandemia, tudo vai (pode?) acabar. Ou então não, simplesmente seus sonhos com o futuro pararam por algum motivo, vai saber.

Hoje, ele se esforça para aproveitar cada momento do tempo presente. E morre de saudades do passado, apesar das máscaras incômodas, do isolamento, das mortes em penca. E espera, tremendo de medo, que algo ainda mais terrível aconteça.

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